Cristo Pantocrator

sexta-feira, 3 de abril de 2015

A boa ira

São Isaías, o solitário

Sobre a guarda do intelecto
“Há entre as paixões uma ira do intelecto, e esta ira está de acordo com a natureza. Sem a ira o homem não pode obter a pureza: ele tem de se sentir irado com tudo o que é semeado pelo inimigo. Quando Jó sentiu essa ira ele injuriou seus inimigos, chamando-os ‘homens desonráveis sem nenhuma reputação, a quem falta tudo de bom, a quem eu não deixaria viver com os cães que guardam meu rebanho’ (Jo 30, 1). Aquele que deseja adquirir a ira que está de acordo com a Natureza deve extirpar toda a sua vontade própria, até que ele estabeleça em si mesmo a guarda natural do intelecto.
Se você se encontra odiando seu irmão e resiste a este ódio, e você vê que este ódio se enfraquece e até se retira, cuidado para não se regozijar, pois pode ser uma armadilha do inimigo. Eles estão se preparando para um ataque pior do que o primeiro; eles deixam suas tropas escondidas na cidade ordenando-os a permanecerem lá. Se você sai para atacá-los eles fugirão antes que você se enfraqueça. Mas se seu coração se exulta porque você crê ter vencido, os que estavam ocultos vão te atacar enquanto outros permanecerão diante de ti, e sua alma miserável vai ficar sem meios de defesa sem meios de se escapar. A cidade é a oração. A resistência é a repulsa ao mal através de Cristo Jesus. O fundamento é o poder do fervor.
Esteja firme no amor a Deus, rigorosamente praticando as virtudes e não concedendo à nossa consciência causa de tropeço. No temor de Deus manteremos nossa atenção fixado em nós mesmos, até que nossa consciência alcance a sua liberdade. Então haverá uma união entre Ele e nós e Ele será nosso guardião, mostrando-nos o que temos de fazer em cada caso. Mas se não obedecemos nossa consciência, ela nos abandonará e cairemos nas mãos dos inimigos, que não nos deixarão. Isto foi o que Nosso Senhor quis dizer quando ensinou: ‘Entra em acordo sem demora com o teu adversário, enquanto estás em caminho com ele, para que não suceda que te entregue ao juiz, e o juiz te entregue ao seu ministro e sejas posto em prisão’. (Mateus 5, 25). A consciência é chamada de ‘adversário’ porque ela se opõe a nós quando queremos realizar nossos desejos; e se não ouvimos nossa consciência, ela nos deixa nas mãos de nossos inimigos”



quinta-feira, 10 de abril de 2014

Que a repetição frequente encontrada nas Sagradas Escrituras não é mera verbosidade


Que a repetição frequente encontrada nas Sagradas Escrituras não é mera verbosidade
(continuação do post anterior)
De São Pedro de Damasco



As Divinas Escrituras frequentemente repetem as mesmas palavras, ainda que isto não seja reconhecido como verbosidade. Pelo contrário, por meio desta frequente repetição ela chama inesperadamente e compassivamente aqueles que são lentos em compreender coisas com consciência, entendendo o que está sendo dito; e isto garante que o que se diz em particular não escape por conta da sua fugacidade e brevidade. Isto pode acontecer especialmente quando somos muito envolvidos nos negócios desta vida, e sabendo quase nada salvo uma parte - ainda que, como diz São João Crisóstomo nós não conheçamos plenamente o que é dado em parte, mas apenas uma parte de uma parte (Sobre a incompreensibilidade de Deus 1,3). Esta parte mesma será "aniquilada" (I Coríntios 13:10), não no sentido em que vai desaparecer e ser reduzida a nada - pois assim não seria um tipo de conhecimento e não seria humano - mas no sentido em que será substituída pelo conhecimento que vem do encontro do 'face a face', no mesmo sentido em que a infância desaparece quando crescemos, para usar uma analogia dada por São Paulo (cf. I Coríntios 13: 11-12). Isto, mais uma vez, é o que São João Crisóstomo quis dizer quando ele afirma que agora sabemos que o céu existe, ainda que não saibamos o que ele é; mas que depois o menor será abolido pelo maior, isto é, por conhecermos o que é o céu, nosso conhecimento crescerá.

Pois há muitos mistérios escondidos nas Sagradas Escrituras, e não conhecemos o que Deus quis dizer no que está dito lá. "Não despreze nossa fraqueza", diz São Gregório, o teólogo, "e critique nossas palavras, quando admitirmos nossa ignorância". É estúpido e rude, declara São Dionísio Aeropagita, dar atenção não ao significado pretendido mas apenas às palavras.  Mas aquele que procura com santa tristeza encontrará. Essa tarefa é para ser empreendida no temor, pois por meio dele coisas ocultas se revelam.

Assim, em uma passagem, o profeta Isaías diz, 'O morto não verá a vida' (Isaías 26: 14, LXX); em outra ele diz, 'O morto ressuscitará' (Isaías 26: 19, LXX). Mas isto não é uma contradição, como pensaram aqueles que falharam em entender o significado manifestado pela interpretação espiritual da Divina Escritura. Pois ele estava se referindo aos ídolos dos Gentios quando ele disse, 'eles não verão a vida', porque eram desumanos; enquanto quando disse, 'o morto ressuscitará', ele estava se referindo à ressurreição geral e à benção do justo - ainda que ele também estivesse profetizando a ressurreição dos mortos de nosso Salvador Jesus Cristo. De modo similar, nos Santos Evangelhos, na afirmação da transfiguração do Senhor, um dos evangelistas disse, 'após seis dias' (Mateus 17:1; Marcos 9:2), enquanto outro fala de 'oito dias' (Lucas 9:28) -, querendo dizer, em cada caso, após os milagres que precederam os ensinamentos do Senhor. Bem, aqueles deixam de contar o primeiro e o último dias e contam apenas os dias entre eles, enquanto os outros incluem também estes e assim falam de oito dias.

Novamente, no Evangelho de São João, o Teólogo diz em um ponto, 'E há muitos outros sinais que Jesus realizou na presença de Seus discípulos que não são ditos neste livro' (João 20:30); enquanto em outro lugar diz, 'E há muitas outras coisas que Jesus fez' (João 21:25), sem dizer 'na presença de seus discípulos'. De acordo com estas passagens diz São Prócoro, que o Evangelista que os escreveu no primeiro caso se referia aos milagres e outras coisas que o Senhor fez, os quais ele não escreveu por já terem sido descritas pelos outros Evangelistas; e isto ele acrescenta porque foram feitas 'na presença de Seus discípulos'. No segundo caso ele está se referindo à criação do mundo, quando o logos de Deus estava em seu Estado Incorpóreo, e quando junto a Ele o Pai criou todas as coisas de sua não existência, dizendo 'Haja, e houve' (Gênesis 1: 3-14). 'Se todas estas coisas fossem gravadas individualmente', diz o Teólogo, 'Eu suponho que mesmo o mundo inteiro não poderia conter os livros que seriam escritos'. (João 21:25).
Falando em termos gerais, toda passagem da Escritura e toda palavra de Deus, ou de qualquer santo, se refere a um sentido oculto para o fim das coisas criadas, se elas pertencem ao reino das coisas sensíveis ou inteligíveis. O mesmo também é verdadeiro de qualquer afirmação humana. E ninguém sabe o significado da passagem em questão exceto por Revelação. Como o Senhor disse, "O vento sopra onde quer" (João 3:8). Comentando isso, São João Crisóstomo observa que o Senhor não quer dizer que o vento tenha vontade própria mas dando um desconto a Nicodemos por conta de sua fraqueza, Ele fala do vento de modo que Nicodemos possa entender oque lhe estava sendo dito. O Senhor estava, de fato, se referindo ao Espírito Santo quando Ele falou do vento. Ele estava tentando falar a Nicodemos e aos outros que o que Ele disse a eles era espírito ou espiritual e não o que eles julgavam que fosse. Ele não estava falando sobre coisas corpóreas, de modo que ele pudesse ser entendido simplesmente por pessoas terrenas. Por esta razão São João de Damasco escreve que se o falante não nos manifesta o significado do que ele diz, nós não podemos saber o que ele quer dizer. E como pode alguém ousar dizer, 'eu conheço o propósito de Deus que jaz oculto na Divina Escritura', a menos que tenha lhe sido revelado pelo Filho?

O próprio Cristo disse que Ele revela a verdade a quem Ele quiser (cf. Mateus 11: 27). Isto quer dizer que Ele revela apenas se nós previamente resolvemos receber este conhecimento dEle espiritualmente por mantermos seus Divinos Mandamentos; porque sem isto quem presuma possuir conhecimento está mentindo. Pois, como São João Clímaco diz, ele fala de conjectura, não aprendendo autoritariamente de Deus, mesmo que em sua vaidade ele se orgulhe desmesuradamente. É tal pessoa que São Gregório, o Teólogo, tem em mente quando ele usa a frase "Ó você grande amante da sabedoria" ou "Ó você  erudito maravilhoso", reprovando-o por sua presunção em pensar que ele sabe alguma coisa quando de fato é um ignorante. Em tais casos, o que ele pensa que tem lhe será tirado (cf. Mateus 13:12), para que ele diga involuntariamente, 'Eu não sei', como disseram todos os santos. Tivesse ele dito isto, o que lhe faltava ser-lhe-ia dado em abundância por causa de sua humildade, e dado abundantemente, como foi aos santos. Pois os santos, apesar de saber, diziam não conhecer. Como São João Crisóstomo observa, São Paulo não disse, 'Nunca soube nada', mas que ele nunca conhecia as coisas 'como deveriam ser conhecidas' (I Coríntios 8:2). Assim que ele sabia, mas não como convinha saber.











quinta-feira, 27 de março de 2014

O grande valor do amor e do conselho dado com humildade

continuação do post anterior
páginas. 184 a 188


O Senhor, então, nos deu estes e muitos outros conselhos similares, como também fizeram os apóstolos quando disseram, "Nós exortamos vocês, amados, a fazer isto ou aquilo". Nós, no entanto, somos encorajados involuntariamente por aqueles que buscam conselho de nós. Assim, se eles nos encontrassem humildes e cheios de respeito para com eles, nos ouviriam com alegria, sentindo segurança por falarmos as palavras das Sagradas Escrituras com grande humildade e amor. Eles avidamente perseguiriam a honra e o amor que receberam de nós e unidos a esta honra e amor, também aceitariam o que é árduo, já que pelo amor isso lhes pareceria fácil.
Foi justamente este o caso em que o santo apóstolo Pedro, que soube da morte de cruz e regozijou-se (cf. João 21: 18-20); isto era nada para ele; pois ele estava inebriado de amor para com o seu Mestre. Ele não estava interessado em milagres, como estão os descrentes, mas disse ao Senhor: "Tuas palavras são palavras de vida eterna. Nós acreditamos e estamos certos de que Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo". (João 6: 68-69). Não foi assim com Judas, que morreu duas vezes; quando se enforcou, ainda não morrera, mas não querendo viver no arrependimento, foi arrebentado por dentro, como diz o Apóstolo Pedro (Atos 1:18). Assim novamente, o santo Apóstolo Paulo diz certa vez aos irmãos: "Tão grande é nossa afeição por vocês que desejávamos não compartilhar com vocês o Evangelho de Cristo apenas, mas nossa própria alma" (1 Tessalonicenses 2 : 8); e em todo lugar ele diz, "Nós somos vossos servos por amor a Cristo" (2 Coríntios 4: 5). Novamente, escrevendo a Timóteo, nos exorta a tratar os anciãos como pais e os jovens, como irmãos (cf. Timóteo 5:1). Quem é capaz de captar a humildade dos santos e arder-se do amor que sentiram para com Deus e seus próximos? De fato, devemos ser atentos não apenas para com Deus e nosso próximo, mas a qualquer um com quem falamos ou a quem escrevemos.

Pois aquele que deseja admoestar alguém ou dar-lhe algum conselho -, ou, de preferência, refrescar a memória como fala São João Clímaco - deve primeiro ser purificado das paixões, para que assim ele possa verdadeiramente entender o propósito divino e o estado da pessoa que lhe pede conselho. Pois o mesmo remédio não é prescrito a todos, ainda quando a doença é a mesma. Então devemos determinar o tipo de pessoa que está buscando conselho se ele deseja de fato comprometer-se totalmente a obedecer de corpo e alma; ou, se ele fez este pedido espontaneamente e com fé ardente, procurando conselho nosso antes de questionar seu próprio mestre; ou se há alguma coisa externa que o force a fingir necessitar de tal conselho. Neste último caso, tanto quem dá como quem recebe o conselho sucumbirão à falsidade e à conversa fiada, cheia de engano entre tantas outras coisas. O discípulo, forçado por seu suposto professor a falar contra a sua vontade, sente-se envergonhado e conta-lhe mentiras, fingindo querer fazer o bem; e o professor também age enganosamente, lisonjeando seu discípulo de modo a descobrir o que jaz oculto em sua mente, e em geral empregando todo tipo de truque e falando em profundidade, a despeito do fato de Salomão ter dito, "Da multidão de palavras não escapará o pecado" (Provérbios 10:19). São Basílio, o Grande, também descreveu os pecados que vinham da conversa fiada.
E tudo isso fora dito, não para que nos recusássemos a aconselhar aqueles que vem a nós prontamente e com firme fé, especialmente se atingimos um estado de desapego; isto foi dito para evitar que por excesso de autoestima nos ponhamos a ensinar presunçosamente aqueles que não expressam desejo de nos ouvir através de suas ações e de sua fé ardente. Enquanto estivermos sob o império das paixões não devemos fazer isso, ainda que tenhamos autoridade para fazê-lo. De preferência, como os pais disseram, a menos que sejamos questionados pelos irmãos não devemos dizer qualquer coisa no sentido de ajudá-los, pois qualquer benefício é conseqüência apenas de sua própria livre escolha. Tanto São Paulo quanto São Pedro seguiram este princípio (Filemon, verso 14; I Pedro 5: 2); e São Pedro adiciona que nós não devemos nos fazer senhores de nosso rebanho mas um exemplo a eles (cf. 1 Pedro 5: 3). E São Paulo escreveu a São Timóteo, "o fazendeiro que trabalha deve ser o primeiro a comer o que produz" (2 Timóteo 2: 6) : isto significa que deve ser o primeiro a praticar quem pretende pregar. Novamente, ele escreve: "Ninguém despreze e tua mocidade" (1 Timóteo 4: 12) : isto é, não faça nada que é imaturo ou infantil, mas de preferência, aja como um perfeito em Cristo. Similarmente, é dito no Geronticon que, a menos que sejam encorajados pelos irmãos, os pais não devem dizer qualquer coisa que possa contribuir para a salvação da alma; eles reconhecem um conselho não solicitado como vã tagarelice. Isto é quase certo; pois é por pensarmos saber mais do que os outros que falamos sem sermos convidados. E quanto mais reconhecemos sermos culpados disto,  maior liberdade dispomos diante de Deus, pois os santos, quanto mais próximos estavam de Deus, mais se viam como pecadores, como dizia São Doroteu; eles ficavam estupefatos pelo conhecimento de Deus que lhes foi concedido, eles, que estavam reduzidos ao desamparo. 

Assim, também, os santos anjos em sua infinita felicidade e maravilhamento não podem nunca satisfazer seu desejo de Deus; e porque eles foram encontrados dignos de celebrar tão grande Mestre, eles cantam Suas preces sem cessar, maravilhando o que Ele fez, como diz São João Crisóstomo, e avançando para um conhecimento maior, como estabelece São Gregório, o teólogo. E o mesmo sucede com todos os santos, neste mundo e no próximo. Como os anjos transmitem iluminação um ao outro, são seres instruídos uns pelos outros. Alguns derivam seu conhecimento das Divinas Escrituras e ensinam aqueles que estão em maior necessidade, enquanto outros são ensinados espiritualmente pelo Espírito Santo e tornam conhecido aos seus irmãos por escrito os mistérios que lhes foram revelados.
Por conseguinte, todos nós necessitamos nos humilhar diante de Deus uns diante dos outros, na medida em que recebemos de Deus nosso ser e todas as outras coisas, e diante uns dos outros, na medida em que recebemos DEle, nosso conhecimento. Aquele que se humilha é iluminado em tudo, enquanto que aquele que recusa em se humilhar permanece na escuridão, como foi o caso da estrela da manhã, que hoje é o demônio. Pois Lúcifer originalmente pertenceu à mais baixa casta angélica, a mais próxima à terra e a mais afastada da ordem suprema que está ao lado do trono inaproximável; mas por causa de sua auto elação ele, e aqueles que lhe obedeciam, tornaram-se mais baixos não só das nove ordens dos anjos mas também de nós que habitamos a terra, e mais baixo, até mesmo, dos poderes subterrâneos: pois ele mesmo foi lançado no Tártaro por causa de sua arrogância insensível.
Por causa disso é dito frequentemente que apenas a presunção, sem qualquer outro pecado adicional, é suficiente para destruir uma alma; pois aquele que reconhece seu pecado como trivial acaba por cair em outros maiores, como disse Santo Isaac. E aquele que recebeu um dom de Deus, e é ingrato por isso, já está no caminho de se perder; pois como diz São Basílio Magno, ele se fez indigno do dom de Deus. Pois a gratidão é uma forma de intercessão. Não deve, no entanto, ser como a gratidão do fariseu, que condenou aos demais e justificou a si mesmo (cf. Lucas 18:11). pelo contrário, deve se reconhecer como o mais devedor de todos os homens; e dar graças em confuso espanto, compreendendo a contenção e paciência indizível de Deus. Mais ainda, deve se maravilhar que Deus, que de nada carece, que é louvado acima de tudo, aceita esta gratidão de nós a despeito do modo como O iramos e O amarguramos constantemente mesmo depois dEle nos ter concedido tantas e tão variadas bençãos, tanto universais quanto particulares.
Tais bençãos, tanto de corpo quanto de alma, foram descritas por São Gregório o Teólogo e outros pais, e elas tomaram formas incontáveis. Uma delas consiste no fato de que nas Sagradas Escrituras algumas coisas são óbvias e fáceis de compreender, enquanto outras são obscuras e difíceis. Através das primeiras Deus extrai o mais lento entre nós para a fé a para a investigação das coisas mais difíceis; e neste sentido Ele garante que nós não devemos cair em desespero e perder nossa fé por causa de nossas falhas totais de entendimento do que é dito.  Através da segunda categoria Ele nos preserva de incorrer em condenação ainda maior desdenhando as passagens que não entendemos. Ele deseja que aquele que quer fazê-lo deverá trabalhar voluntariamente para tentar por em prática o que está claro - e por conta disso ele será louvado, como diz São João Crisóstomo.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Sobre a edificação da alma através das virtudes

De São Pedro de Damasco
Continuação do post anterior

Sobre a edificação da alma através das virtudes

De acordo com São Basílio o Grande, a principal coisa que necessitamos é perseverança, assim como a terra precisa de água. Nesta terra deve-se estabelecer o fundamento da fé. (cf. 2 Pedro 1:5). Então o discernimento, como um construtor experiente, pode estabelecer lentamente a edificação da casa da alma sob a terra da humildade, edificando pedra a pedra - isto é virtude por virtude - até o telhado, que é o amor perfeito. Então, quando estabelecer bons porteiros sempre portando armas - que são os pensamentos luminosos e as ações divinas capazes de proteger o Rei de ser perturbado - o mestre da casa chega e toma residência lá. Não deve ter porteiro feminino aquele que está ocupado com sua própria obra, como diz São Nilo em sua interpretação do Antigo Testamento: ele explica que foi por esta razão que o patriarca Abraão não designou uma porteira, mas preferencialmente alguém que fosse viril - rápido e de pensamentos incisivos - armado com, entre outras coisas, 'a espada do Espírito, que é a Palavra de Deus' (Efésios 6:17) para que pudesse combater e matar aqueles que tentassem entrar. Pois tal porteiro é vigilante e está em seu posto para destruir os pensamentos com ação retaliadora e as conversas rejeitando-as. Ele repele tudo o que entra no coração que é contrário aos propósitos de Deus, desdenhando-os e rejeitando-os para que o intelecto iluminado não possa nunca parar de contemplar a Deus e para que não seja esvaziado dos pensamentos divinos. Este é o trabalho da quietude, como assinala São Nilo. Em outro lugar, referindo-se à Sagrada Escritura, São Nilo explica que a distração é a causa do obscurecimento do intelecto. E isto é de se esperar, pois se o intelecto não está completamente contido como água em um tubo, então a mente não pode ser recolhida em si mesma para subir a Deus. E se ela não sobe espiritualmente e saboreia ao menos alguma coisa que está em cima, como ela pode literalmente ser separada do que está abaixo?
Assim, como diz São Paulo (cf. 2 Cor. 5:7), devemos avançar com base na fé, esforçando-nos em nos conformar com a vontade de Deus. E, com o tempo, àqueles que fizerem bons progressos sucederá obter parcial conhecimento derrubando o inimigo. Eles então receberão a plenitude deste conhecimento no mundo que virá, quando o espelho, a vida mortal, for quebrado (cf. 1Coríntios 13:12), e quando a alma não mais desejar contra a carne, ou a carne contra o espírito (cf. Gálatas 5:17), e quando a preguiça não mais engendrar esquecimento ou o esquecimento a ignorância. Isto é o que a maioria de nós experimenta na vida presente, e é por isso que precisamos de um texto escrito para nos lembrar disto. Na verdade, amiúde um pensamento ocorreu-me espontaneamente, e foi ao escrevê-lo que eu o fixei na memória. Assim, em tempo de batalha espiritual, isso me serviu de ajuda ou alívio ou gratidão, apoiado como estava no testemunho da Divina Escritura. Se eu tivesse sido negligente sobre o fato de escrevê-lo, eu não o teria encontrado em caso de necessidade, e teria sido privado de sua ajuda pelo maior de todos os demônios, o esquecimento.
Por esta razão, devemos aprender as virtudes por meio de sua prática, não simplesmente através de conversa acerca delas, para que ao adquirir o hábito delas não venhamos a nos esquecer seus benefícios sobre nós. "O Reino de Deus", como diz São Paulo, "reside não em palavras, mas em Poder" (1 Coríntios 4:20). Pois aquele que tenta descobrir coisas através da prática atual virá a entender o que ganha e o que perde em qualquer atividade que exerça, como diz São Isaac; e ele poderá também dar conselho aos outros, pois ele frequentemente passou provações e consequentemente ganhou experiência. Pois São Isaac nos conta que algumas coisas parecem boas mas escondem não poucos prejuízos, enquanto outras parecem más mas contêm nelas mesmas grande proveito. Por esta razão, ele afirma, nem todo homem pode merecer confiança quando dá conselhos àqueles que o procuram. Só podemos confiar naquele que recebeu de Deus a graça do discernimento e aquele, como diz São Máximo, que adquiriu através de grande humildade e longa prática de virtudes um intelecto abençoado com perspicácia espiritual. Tal homem está em condições de aconselhar, não todo mundo, mas pelo menos àqueles que o procuram voluntariamente e que lhe pedem ajuda por suas próprias escolhas; pois ele aprendeu as coisas em suas verdadeiras ordens. É por causa de sua humildade, e porque seus interlocutores o procuram voluntariamente, que o que ele diz é selado na alma de seus ouvintes: eles estão cheios do calor da fé, reconhecendo este bom conselheiro como se o mesmo fosse o 'maravilhoso conselheiro' de quem fala o profeta Isaías chamando-o "Deus Forte, Legislador, Príncipe da Paz". (Isaías 9:6).
               Isto claro se refere ao Nosso Senhor Jesus Cristo, que disse aos homens que se dirigiram a Ele, "Quem estabeleceu-me juiz ou árbitro sobre vocês?" (Lucas 12: 14). No entanto, Ele também disse, "O Pai empenhou todo o julgamento do Filho" (João 5:22). Através de Sua sagrada humildade, Ele nos mostra aqui, como em todo lugar, o caminho da salvação e como Ele não restringe ninguém. "Se alguém quiser vir após Mim", Ele diz, "renegue-se a si mesmo, tome a sua cruz e Me siga" (Mateus 16:24), isto é, não se preocupe com sua própria vida em qualquer sentido, mas assim como Eu ativamente submeti Minha visível e voluntária morte pela salvação de todos, assim sigam-Me em palavra e ação, como fizeram os apóstolos e mártires; e se alguém não pode fazer isto aparentemente, deixe-o suportar a morte na medida em que a probidade de sua intenção está em causa. Novamente, ao jovem rico Ele disse: "Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens, dá aos pobres, vem e Me segue" (Mateus 19:21).
              Com referência a este incidente São Basílio (Sermão sobre o Jovem Rico) disse que o jovem rapaz mentiu quando afirmou guardar os mandamentos; pois se os guardasse não teria acumulado tantas posses, já que o primeiro mandamento da Lei é "Amarás o Senhor teu Deus com toda a tua alma" (Deuteronômio 6:5). A palavra "toda" proíbe quem ama a Deus a amar qualquer outra coisa de modo a entristecer-se caso ela lhe fosse retirada. Após isso a Lei diz, "Amarás o teu próximo como a ti mesmo" (Levítico 19:18), isto é, amarás a todos os homens. Mas como ele poderia ter guardado os mandamentos tendo tantas possessões e estando apaixonadamente unido a elas quando a tantos homens falta o alimento diário? Se, como Abraão, Jó e outros homens justos ele tivesse reconhecido tais possessões como propriedades de Deus, ele não teria partido triste. São João Crisóstomo (Homília sobre Mateus 63,2) diz a mesma coisa: o jovem acreditou que o que era dito a ele pelo Senhor era verdadeiro, e foi por esta razão que ele partiu cheio de tristeza, pois não tinha força para por em prática. Pois há muitos que acreditam nos ditos da Escritura, mas não possuem a força para pô-los em prática.