Continuação do post anterior
páginas 175 e 176
Como a fala de Deus não é palavra solta
A fala de Deus, diz São Máximo, não é palavra solta, e ainda que falemos longamente e com profundidade, não conseguimos pronunciar o equivalente a uma única palavra de Deus. Por exemplo, Deus diz, "Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu entendimento" (Deuteronômio 6:5), no entanto, quanto foi dito e escrito acerca disso pelos padres, e ainda hoje se diz e escreve, sem conseguir-se equiparar o dito por esta sentença? Pois, como disse São Basílio o Grande, amar a Deus com toda a nossa alma significa significa não amar nada conjuntamente a Deus; mas se alguém ama sua própria alma, ele ama Deus não com toda a sua alma, mas apenas parcialmente; e se amamos a nós mesmos e também a um monte de outras coisas, como podemos amar a Deus ou ousar afirmar que o amamos? O mesmo com relação ao amor ao próximo. Se não desejamos sacrificar esta vida temporal ou talvez mesmo a vida vindoura por amor ao próximo, como fizeram Moisés e Paulo, como podemos dizer que o amamos? "Se desejas perdoar seus pecados, perdoa; mas se não, tira-me também do Livro da vida que estás a escrever" (Êxodo 32:32); enquanto São Paulo disse, "Pois eu mesmo poderia ser anátema de Cristo por amor de meus irmãos" (Romanos 9:3). Ele rogou que pudesse perecer a fim de que os demais pudessem ser salvos _ e estes outros eram os israelitas que procuravam matá-lo.
Assim são as almas dos santos: eles amam seus inimigos mais do que a si mesmos, e nesta era e na era que virá eles colocam seu próximo acima de todas as coisas, mesmo que por má vontade este possa ser seu inimigo. Eles não procuram recompensa daqueles que eles amam, mas porque eles mesmos receberam amor eles se regozijam em dar aos outros tudo o que eles têm, assim eles podem se conformar ao seu Benfeitor e imitar Sua compaixão ao máximo, "pois Ele é benigno até para com ingratos e pecadores" (cf. Lucas 6:35). De fato, quanto mais um homem é encontrado digno de receber os dons de Deus, mais ele deve se considerar um devedor de Deus, que ressuscitou e lhe concedeu o privilégio de imitar em algum grau ao seu Criador e Deus. Aguentar a injustiça com alegria, pacientemente fazer o bem a seus inimigos, dar sua própria vida pelo próximo, são dons de Deus concedidos àqueles que se prontificaram a recebê-los de Deus através de sua solicitude em cultivar a proteger o que lhes foi confiado, como foi ordenado a Adão fazer (Gênesis 2:15). Neste sentido eles se agarram aos dons através de sua gratidão para com o Benfeitor deles. Pois nós nunca alcançamos qualquer coisa de boa por nossos próprios esforços, mas todas as nossas coisas boas provém de Deus por meio da Graça, e vêm como do nada ao ser. Pois "o que é que tenhamos que não nos foi dado?", pergunta São Paulo - nós as recebemos livremente de Deus; "e se o recebeste, por que te glorias como se não o tivesse recebido?" (I Cor 4:7). O que se alcança por si mesmo? Ora, por si mesmo não podemos alcançar nada, pois o próprio Senhor disse: "Sem Mim, nada podeis fazer". (João 15:5)
Esse blog pretende divulgar traduções de textos em grego, francês, inglês e espanhol, com o intuito de divulgar o pensamento bizantino. Pretende-se com isso ajudar os estudantes de filosofia e teologia a saber diferenciar as nuances do cristianismo oriental, bem como a orientar a todos os que anseiam por espiritualidade profunda a conhecer as obras dos Padres da Filocalia. Antes de rejeitar o cristianismo, é preciso conhecê-lo. Impossível rejeitá-lo, depois disso.
segunda-feira, 11 de novembro de 2013
terça-feira, 5 de novembro de 2013
Como Deus fez todas as coisas para nosso benefício
Também de São Pedro de Damasco.
Continuação do Post anterior
Páginas 173 a 175.
Como Deus fez todas as coisas para nosso benefício
Deus fez todas as coisas para nosso benefício. Somos educados e guardados pelos anjos; somos tentados pelos demônios para que aprendamos a humildade e não deixemos de recorrer ao auxílio indispensável de Deus, salvando-nos da auto louvação e livrando-nos de nossa negligência. Por outro lado, somos levados a dar graças ao Nosso Benfeitor através das coisas boas deste mundo as quais sublinho a saúde, a prosperidade, o vigor físico, o descanso, a alegria, o conhecimento espiritual, a riqueza, o progresso em todas as coisas, uma vida em paz, o gozo das honras, da autoridade, a abundância e todas as outras supostas bençãos desta vida. Somos levados a amá-Lo e a fazer o bem que pudermos, porque sentimos uma obrigação natural a recompensá-Lo por Seus dons dispensados a nós para realizarmos boas obras. Claro que é impossível recompensá-Lo, pois nosso débito cresce cada vez mais. Por outro lado, por aquilo que consideramos prejuízo, obtemos um estado de paciência, humildade, esperança de bençãos na era que virá, e o que eu chamo de "prejuízos" quero dizer doença, desconforto, tribulação, fraqueza, aflição não procurada, trevas, ignorância, pobreza, infelicidade geral, medo da perda, desonra, aflição, indigência, e por ai vai. De fato, não apenas para a era que virá mas mesmo para a vida presente, tais coisas são fonte de grandes bençãos para nós.
Assim, Deus em sua bondade indizível, providenciou todas as coisas de um modo maravilhoso para nós; e se você que entender isso e ser como deve ser, esforce-se em adquirir as virtudes que o capacitarão a ser grato a tudo o que vier e a permanecer não perturbado em todas as coisas, sendo elas boas ou más. E mesmo quando os demônios sugerem algum pensamento que nos infle de orgulho e nos conduza a auto louvação, lembre-se das coisas vergonhosas que eles lhe disseram no passado, rejeite tais pensamentos e torne-se humilde. E novamente, quando eles sugerirem a você alguma coisa vergonhosa, você deve ficar atento ao que provoca pensamentos orgulhosos e com isso rejeitar novas sugestões. Assim, por intermédio da cooperação da Graça e por meio da recordação, expulsamos os demônios, e não nos afundamos no desespero aceitando suas sugestões despudoradas, ou os expulsamos de nossa mente quando lhe damos guarida por conta da nossa própria vaidade. Pelo contrário, quando nosso intelecto é exaltado, refugiemo-nos na humildade; e quando nossos inimigos nos humilharem diante de Deus, nos seguremos na esperança. Por esta via você até seu último suspiro nunca se tornará confuso ou quedará, ou, através do medo, sucumbirá ao desespero.
Este é, de acordo com o Gerontikon, o grande trabalho do monge. Quando seus inimigos lhe sugerem uma coisa, ele apresenta outra, quando apresentam esta outra coisa, ele retorna à primeira novamente, sabendo que nada nesta vida é isento de mudança, e que "aquele que perseverar até o fim será salvo" (Mateus 10:22). Mas a pessoa que quer que as coisas aconteçam como ele mesmo quer, não sabe para onde está indo, como um cego jogado de cá para lá pelo vento, ele é totalmente dominado pelo que ocorrer a ele. Como um escravo ele teme o que lhe causa aflição, e é feito cativo de sua própria vaidade; em sua alegria insana ele pensa que possui coisas nunca vistas cuja origem ele ignora totalmente - e se ele não reconhece sua ignorância, ai sim ele é ainda mais cego. Isto ocorre porque ele não se autocensura. Tal falta de autocrítica é um tipo de autossatisfação e conduz imperceptivelmente à autodestruição, como diz São Macário em seu discurso sobre o monge que viu a Jerusalém celeste: quando este monge estava rezando com algum de seus irmãos, seu intelecto foi arrebatado em êxtase, mas ele pereceu porque creu ter alcançado isso por seus próprios esforços, e não reconheceu que por esta dádiva ele havia se tornado o maior dos devedores. Como aqueles dominados pelas paixões não percebem o óbvio pelo ofuscamento produzido por suas paixões, o homem desapegado, por outro lado, por conta da pureza de seu intelecto, sabe coisas das quais o resto dos homens é ignorante.
Continuação do Post anterior
Páginas 173 a 175.
Como Deus fez todas as coisas para nosso benefício
Assim, Deus em sua bondade indizível, providenciou todas as coisas de um modo maravilhoso para nós; e se você que entender isso e ser como deve ser, esforce-se em adquirir as virtudes que o capacitarão a ser grato a tudo o que vier e a permanecer não perturbado em todas as coisas, sendo elas boas ou más. E mesmo quando os demônios sugerem algum pensamento que nos infle de orgulho e nos conduza a auto louvação, lembre-se das coisas vergonhosas que eles lhe disseram no passado, rejeite tais pensamentos e torne-se humilde. E novamente, quando eles sugerirem a você alguma coisa vergonhosa, você deve ficar atento ao que provoca pensamentos orgulhosos e com isso rejeitar novas sugestões. Assim, por intermédio da cooperação da Graça e por meio da recordação, expulsamos os demônios, e não nos afundamos no desespero aceitando suas sugestões despudoradas, ou os expulsamos de nossa mente quando lhe damos guarida por conta da nossa própria vaidade. Pelo contrário, quando nosso intelecto é exaltado, refugiemo-nos na humildade; e quando nossos inimigos nos humilharem diante de Deus, nos seguremos na esperança. Por esta via você até seu último suspiro nunca se tornará confuso ou quedará, ou, através do medo, sucumbirá ao desespero.
quinta-feira, 17 de outubro de 2013
Os dons universais e particulares de Deus
Continuação do post anterior
Também de São Pedro de Damasco
págs. 172 e 173.
Os dons universais e particulares de Deus
Devemos em tudo dar Graças a Deus pois Ele nos concedeu tanto os dons universais quanto os particulares da alma e do corpo. Os dons universais consistem dos quatro elementos e tudo o que existe por meio deles, como também os trabalhos maravilhosos de Deus mencionados nas Sagradas Escrituras. Os dons particulares consistem de tudo o que Deus deu a cada indivíduo. Estes incluem a riqueza, que nos permite realizar atos de caridade; a pobreza, que nos ensina a paciência e a gratidão; a autoridade que pode exercer o julgamento correto e estabelecer a virtude; a obediência e o serviço que podem mais literalmente obter a salvação da alma; a saúde que pode assistir àqueles em necessidade e empreender obras dignas a Deus; a doença, que nos dá a coroa da paciência; o conhecimento espiritual e o vigor, que nos permitem adquirir a virtude; a fraqueza e a ignorância, de modo que, voltando as costas para as coisas do mundo, possamos nos colocar sob obediência em silêncio e humildade; a perda espontânea de bens e posses, para que se possa deliberadamente buscar ser salvo e estar à mercê da solidariedade alheia quando incapaz de dar esmolas por estar sem posses; facilidade e prosperidade, para que se possa lutar voluntariamente e sofrer a fim de se atingir as virtudes e tornar-se por fim sem apegos e apto a salvar outras almas; obstáculos e dificuldades, para que aqueles que não conseguem se livrar de sua própria vontade sejam salvos a despeito de si mesmos, e aqueles capazes de suportar dificuldades com alegria atinjam a perfeição. Todas estas coisas, mesmo que opostas umas às outras, são todas boas se usadas corretamente; mas se mal usadas, elas não são boas, mas são prejudiciais tanto ao corpo quanto à alma.
Melhor que tudo, porém, é sofrer pacientemente suas aflições; e aquele que foi encontrado digno deste grande dom deve dar Graças a Deus porque ele foi o de todos, o mais abençoado. Pois ele se tornou um imitador de Cristo, de Seus santos apóstolos, e dos mártires e santos: ele recebeu de Deus grande vigor e conhecimento espiritual, de modo que ele possa voluntariamente abster-se do prazer e possa literalmente abraçar as dificuldades através da erradicação de sua própria vontade e sua rejeição de pensamentos não santos, e possa assim sempre fazer e pensar de acordo com a vontade de Deus. Aqueles que se encontram dignos de usar as coisas como devem ser usadas devem com toda a humildade dar sinceras Graças a Deus, pois por Sua Graça eles foram libertos de tudo o que é contrário à Natureza e da transgressão aos mandamentos. Nós, porém, que estamos ainda sujeitos às paixões e que ainda fazemos mau uso das coisas, e que agimos de maneira contrária à Natureza, devemos temer e com toda gratidão dar sinceras graças a nosso Benfeitor, admirados de sua paciência indizível, ainda que desobedeçamos aos seus mandamentos, fazendo mau uso de Sua criação e rejeitando Seus dons, Ele suporta nossa ingratidão e não cessa de conferir Suas benção a nós, esperando até nosso último suspiro por nossa conversão e arrependimento.
Deste modo, devemos dar Graças a Ele, como foi dito: "Em tudo, dai graças" (1 Tessalonicenses 5;18), isto é, seja consciente de Deus o tempo todo, em todos os lugares, em todas as circunstâncias. Pois não importa o que você faça, mantenha sua mente no Criador de todas as coisas. Quando você vir a luz, não se esqueça de dar-Lhe graças; quando você vir o céu, a terra, o mar e tudo o que há neles, maravilhe-se por estas coisas e glorifique ao seu Criador; quando você se vestir, reconheça todas estas dádivas e louve-O pela Divina Providência que permite a sua própria vida. Em suam, se tudo o que realizas se torna uma ocasião para Glorificar a Deus, você estará rezando sem cessar. E neste sentido sua alma sempre se regozijará, como recomenda São Paulo (cf. 1 Tessalonicenses 5:16). Assim, como explica São Doroteu, a rememoração de Deus alegra a alma; e ele invoca Davi como testemunha: "Lembrei-me de Deus e me regozijei" (cf. Salmo 77:3/ Bíblia dos Setenta).
Também de São Pedro de Damasco
págs. 172 e 173.
Os dons universais e particulares de Deus
Devemos em tudo dar Graças a Deus pois Ele nos concedeu tanto os dons universais quanto os particulares da alma e do corpo. Os dons universais consistem dos quatro elementos e tudo o que existe por meio deles, como também os trabalhos maravilhosos de Deus mencionados nas Sagradas Escrituras. Os dons particulares consistem de tudo o que Deus deu a cada indivíduo. Estes incluem a riqueza, que nos permite realizar atos de caridade; a pobreza, que nos ensina a paciência e a gratidão; a autoridade que pode exercer o julgamento correto e estabelecer a virtude; a obediência e o serviço que podem mais literalmente obter a salvação da alma; a saúde que pode assistir àqueles em necessidade e empreender obras dignas a Deus; a doença, que nos dá a coroa da paciência; o conhecimento espiritual e o vigor, que nos permitem adquirir a virtude; a fraqueza e a ignorância, de modo que, voltando as costas para as coisas do mundo, possamos nos colocar sob obediência em silêncio e humildade; a perda espontânea de bens e posses, para que se possa deliberadamente buscar ser salvo e estar à mercê da solidariedade alheia quando incapaz de dar esmolas por estar sem posses; facilidade e prosperidade, para que se possa lutar voluntariamente e sofrer a fim de se atingir as virtudes e tornar-se por fim sem apegos e apto a salvar outras almas; obstáculos e dificuldades, para que aqueles que não conseguem se livrar de sua própria vontade sejam salvos a despeito de si mesmos, e aqueles capazes de suportar dificuldades com alegria atinjam a perfeição. Todas estas coisas, mesmo que opostas umas às outras, são todas boas se usadas corretamente; mas se mal usadas, elas não são boas, mas são prejudiciais tanto ao corpo quanto à alma.
Melhor que tudo, porém, é sofrer pacientemente suas aflições; e aquele que foi encontrado digno deste grande dom deve dar Graças a Deus porque ele foi o de todos, o mais abençoado. Pois ele se tornou um imitador de Cristo, de Seus santos apóstolos, e dos mártires e santos: ele recebeu de Deus grande vigor e conhecimento espiritual, de modo que ele possa voluntariamente abster-se do prazer e possa literalmente abraçar as dificuldades através da erradicação de sua própria vontade e sua rejeição de pensamentos não santos, e possa assim sempre fazer e pensar de acordo com a vontade de Deus. Aqueles que se encontram dignos de usar as coisas como devem ser usadas devem com toda a humildade dar sinceras Graças a Deus, pois por Sua Graça eles foram libertos de tudo o que é contrário à Natureza e da transgressão aos mandamentos. Nós, porém, que estamos ainda sujeitos às paixões e que ainda fazemos mau uso das coisas, e que agimos de maneira contrária à Natureza, devemos temer e com toda gratidão dar sinceras graças a nosso Benfeitor, admirados de sua paciência indizível, ainda que desobedeçamos aos seus mandamentos, fazendo mau uso de Sua criação e rejeitando Seus dons, Ele suporta nossa ingratidão e não cessa de conferir Suas benção a nós, esperando até nosso último suspiro por nossa conversão e arrependimento.
quarta-feira, 16 de outubro de 2013
O grande benefício do verdadeiro arrependimento
São Pedro de Damasco
Da mesma versão da Filocalia, das postagens anteriores.
Págs. 170 e 171
O que foi dito em relação ao conhecimento espiritual também se aplica à prática ascética. Toda ação da alma é envolvida por seis embustes: de um lado a outro há excesso e carência de empenho; de cima a baixo auto exaltação e desespero; de perto e distante há tanto covardia como super ousadia as quais, como diz São Gregório, o Teólogo, é bem diferente da coragem, ainda que os termos pareçam similares. No ponto médio destas armadilhas há a ação acompanhada de justa medida e com paciência e humildade.
É notável como o intelecto humano vê coisas diferentemente de acordo com sua própria luz, mesmo quando tais coisas são inalteráveis e nelas mesmas permanecem o que são. Por conta disso não agimos da mesma maneira com relação a elas, mas as usamos de acordo com nossos desejos, sendo estes bons ou maus. Usamos coisas sensíveis em nossa atividade prática, e as coisas inteligíveis em nossos pensamentos e discussões.
Parece-me que há quatro modos de ver os homens e que estes correspondem aos quatro estágios de que fala São Gregório, o Teólogo. Alguns, como os santos e os desapegados, florescem tanto neste mundo quanto no vindouro. Outros, como o jovem rico do Evangelho (cf. Mateus 19:22) prosperam apenas neste mundo, estes, ainda que sejam abençoados de corpo e alma, são indignos dela, já que agem sem gratidão para com seu Benfeitor. Outros, como o paralítico (cf. Mateus 9:2) que são sujeitos a prolongados sofrimentos e abraçam aflições alegremente, estão punidos apenas neste mundo. Outros, finalmente, como os tentados como Judas por seus próprios desejos egoístas, são punidos tanto neste mundo quanto no que virá.
Ademais, os homens possuem quatro diferentes atitudes para com as realidades sensíveis. Alguns, como os demônios, odeiam as obras de Deus, e cometem o mal deliberadamente. Outros, como os animais irracionais, amam tais obras por serem atrativas, mas seu amor é cheio de paixão e eles não fazem nenhum esforço para adquirir a contemplação natural ou para mostrar gratidão. Outros, de maneira benéfica, amam as obras de Deus de maneira natural, com conhecimento espiritual e gratidão, e fazem uso delas com autocontrole. Finalmente, outros, como os anjos, amam tais obras de uma maneira que está acima e para além da natureza, contemplando todas as coisas para a Glória de Deus e fazendo uso delas apenas na medida em que são necessárias para a vida, como coloca São Paulo (cf. 1 Timóteo 6:8).
Da mesma versão da Filocalia, das postagens anteriores.
Págs. 170 e 171
É sempre possível fazer um novo começo por meio do arrependimento. "Você caiu", está escrito, "agora levante" (Provérbios 24:16). Se caiu novamente, levante-se novamente, sem desesperar-se de sua salvação, não importa o que aconteça. Contanto que você não se entregue voluntariamente ao inimigo, sua paciência, combinada com auto-reprovação permanecerão e serão suficientes para a sua salvação. "Pois, uma vez que nós mesmos nos desgarramos em nossa tolice e desobediência", diz São Paulo, "ainda assim Ele nos salvou, não por conta de qualquer coisa boa que tenhamos feito, mas por Sua Misericórdia" (Tito 3, 3-5). Assim basta não desesperar em qualquer sentido, nem ignorar a ajuda de Deus, pois Ele pode fazer qualquer coisa que Ele deseje. Pelo contrário, coloque sua esperança nEle e Ele fará uma destas coisas: ou por meio de provações e tentações, ou por algum outro meio que apenas Ele conhece, Ele nos trará a restauração; ou ainda Ele aceitará a sua paciência e humildade em lugar de obras; ou por conta de sua esperança Ele agirá amavelmente para com você por algum caminho que ainda lhe é desconhecido mas que salvará sua alma agrilhoada. Apenas não abandone seu Médico, pois de outro modo você sofrerá disparatadamente uma morte dupla por não ter confiado nos desígnios ocultos de Deus.
O que foi dito em relação ao conhecimento espiritual também se aplica à prática ascética. Toda ação da alma é envolvida por seis embustes: de um lado a outro há excesso e carência de empenho; de cima a baixo auto exaltação e desespero; de perto e distante há tanto covardia como super ousadia as quais, como diz São Gregório, o Teólogo, é bem diferente da coragem, ainda que os termos pareçam similares. No ponto médio destas armadilhas há a ação acompanhada de justa medida e com paciência e humildade.
É notável como o intelecto humano vê coisas diferentemente de acordo com sua própria luz, mesmo quando tais coisas são inalteráveis e nelas mesmas permanecem o que são. Por conta disso não agimos da mesma maneira com relação a elas, mas as usamos de acordo com nossos desejos, sendo estes bons ou maus. Usamos coisas sensíveis em nossa atividade prática, e as coisas inteligíveis em nossos pensamentos e discussões.
Parece-me que há quatro modos de ver os homens e que estes correspondem aos quatro estágios de que fala São Gregório, o Teólogo. Alguns, como os santos e os desapegados, florescem tanto neste mundo quanto no vindouro. Outros, como o jovem rico do Evangelho (cf. Mateus 19:22) prosperam apenas neste mundo, estes, ainda que sejam abençoados de corpo e alma, são indignos dela, já que agem sem gratidão para com seu Benfeitor. Outros, como o paralítico (cf. Mateus 9:2) que são sujeitos a prolongados sofrimentos e abraçam aflições alegremente, estão punidos apenas neste mundo. Outros, finalmente, como os tentados como Judas por seus próprios desejos egoístas, são punidos tanto neste mundo quanto no que virá.
Ademais, os homens possuem quatro diferentes atitudes para com as realidades sensíveis. Alguns, como os demônios, odeiam as obras de Deus, e cometem o mal deliberadamente. Outros, como os animais irracionais, amam tais obras por serem atrativas, mas seu amor é cheio de paixão e eles não fazem nenhum esforço para adquirir a contemplação natural ou para mostrar gratidão. Outros, de maneira benéfica, amam as obras de Deus de maneira natural, com conhecimento espiritual e gratidão, e fazem uso delas com autocontrole. Finalmente, outros, como os anjos, amam tais obras de uma maneira que está acima e para além da natureza, contemplando todas as coisas para a Glória de Deus e fazendo uso delas apenas na medida em que são necessárias para a vida, como coloca São Paulo (cf. 1 Timóteo 6:8).
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