Cristo Pantocrator

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Sobre o desânimo

Sobre o desânimo
Continuação do post anterior
Tradução de Rochelle Cysne
pags. 87 a 88

Nossa quinta luta é contra o demônio do desânimo, que obscurece a capacidade da alma para a contemplação espiritual e a mantém distante das boas obras. Quando este demônio malicioso aproveita a nossa alma e a obscurece completamente, ele nos impede de orar com alegria, de ler as Sagradas Escrituras com proveito e perseverança, e de ser gentil e compassivo para com nossos irmãos. Ele instila um ódio a todo tipo de trabalho e até mesmo a própria profissão monástica. Minando todas as resoluções salutares da alma, enfraquecendo sua persistência e constância, ele os deixa sem sentido e paralisados, amarrando-os e os prendendo por seus pensamentos desesperados.

Se nossa proposta é lutar a luta espiritual e derrotar, com a ajuda de Deus, os demônios da malícia, nós devemos tomar guarda de nosso coração contra o demônio do desânimo. Como uma traça devora as roupas e um verme devora a madeira, assim o desânimo devora a alma do homem. Ele o persuade a evitar cada encontro útil e parar de aceitar conselho de seus verdadeiros amigos e dar-lhes uma resposta cortês e pacífica. Aproveitando a alma inteira, ele a enche de amargura e apatia. Então ele sugere à alma que nós devemos nos afastar das pessoas, uma vez que elas são a causa de sua agitação. Ele não permite a alma entender que sua doença não vem de fora, mas fica escondida dentro, só se manifestando quando as tentações atacam a alma por causa de nossos esforços ascéticos.

 Um homem pode ser prejudicado por outro apenas por meio das causas das paixões que se encontram dentro dele. E é por esta razão que Deus, o criador de tudo e o Médico da alma humana, que tem conhecimento acurado das feridas da alma, não nos fala para deixar a companhia dos homens; Ele nos diz para erradicar as causas do mal dentro de nós e reconhecer que a saúde da alma não é alcançada pela separação de um homem de seus companheiros, mas em viver a vida ascética na companhia de homens santos. Quando nós abandonamos nossos irmãos por alguma razão aparentemente boa, nós não erradicamos os motivos do desânimo mas apenas os trocamos, já que a doença permanece oculta dentro de nós e inevitavelmente vai manifestar-se em outras circunstâncias.

Assim está claro que nossa luta é toda ela contra paixões interiores. Uma vez que estas paixões tenham sido extirpadas de nosso coração com a Graça e ajuda de Deus, nós literalmente seremos capazes de viver não apenas com homens, mas até mesmo com bestas selvagens. Jó confirma isso quando ele diz: "E as bestas do campo serão pacíficas com você" (Jó 5: 23). Mas antes a gente precisa lutar contra do demônio do desânimo que lança a alma no desespero. Nós temos de tirá-lo de nosso coração. Foi este demônio que não permitiu Caim a se arrepender depois de ter matado seu irmão, ou Judas depois de ter traído seu Mestre. A única forma de desânimo que devemos cultivar é a tristeza que segue o arrependimento pelo pecado e é acompanhada pela esperança em Deus. Foi desta forma de desânimo que o Apóstolo disse: "Por que a tristeza de Deus opera um arrependimento salvador, do qual ninguém se arrepende" (2 Coríntios 7:10). Este pesar divino nutre a alma pela esperança engendrada pelo arrependimento misturado com alegria. É por isso que nos torna obedientes e ansiosos para toda boa obra: acessíveis, humildes, gentis, tolerante e paciente em suportar todos os sofrimentos que Deus envia para nós. A posse destas qualidades mostra que um homem goza dos frutos do Espírito santo: amor, paz, alegria, longanimidade, bondade, fé, auto-controle (Gálatas 5:22). Mas do outro tipo de desânimo, podemos conhecer os frutos do espírito do mal: apatia, impaciência, raiva, ódio, contenda, desespero, lentidão na oração. Assim nós devemos evitar esta segunda forma de desânimo assim como devemos evitar a incastidade, avareza, ira, gula e o resto das paixões. Isso pode ser curado pela oração, esperança em Deus, meditação nas Sagradas Escrituras e pela convivência com pessoas de Deus.


Sobre a Ira

Continuação do post anterior
Páginas 82 a 87
Tradução da versão inglesa de Rochelle Cysne

Nossa quarta luta é contra o demônio da Ira. Nós devemos, com a ajuda de Deus, extirpar esse veneno mortal das profundezas de nossa alma. Enquanto ele habita em nossos corações e cega os olhos de nossa alma com sua desordem sombria, não podemos discernir o que é bom para nós, nem alcançar conhecimento espiritual, nem cumprir com nossas boas intenções, nem participar da vida verdadeira; e nosso intelecto permanecerá imune à contemplação da verdade, luz divina; pois está escrito: "Meus olhos estão consumidos pelo ressentimento" (Salmo 6: 7)

Nem compartilharemos da divina sabedoria, ainda que sejamos considerados sábios entre todos os homens, pois está escrito: "a ira repousa no íntimo dos tolos"; também não podemos discriminar nas decisões que afetam nossa salvação, ainda que sejamos considerados como pessoas de bom senso, pois está escrito: "A ira destrói até os homens de bom senso" (Provérbios 15:1). Nem seremos capazes de manter nossa vida na retidão com um coração atento, pois está escrito: "A ira de um homem não opera a justiça de Deus" (Tiago 1: 20). Nem seremos capazes de adquirir o decoro e a dignidade louvados por todos, pois está escrito: "Um homem irado não é dignificado". (Provérbios 11:25).

Logo, se você deseja atingir a perfeição e acertadamente percorrer a via espiritual você deve se fazer um estranho para toda a ira e indignação pecaminosos. Ouça o que São Paulo prescreve: "Toda amargura, ira, cólera, gritaria, blasfêmia e toda malícia sejam tirados de vós" (Efésios 4:11). Ao dizer "todas" ele não abre nenhuma exceção reconhecendo qualquer ira como necessária ou razoável. Se você deseja corrigir o seu irmão quando ele está errado, ou puni-lo, você deve manter-se calmo; de outro modo, você mesmo poderá ser apanhado pela doença que deseja curar e você perceberá que as palavras do Evangelho agora estão aplicadas a você: "Médico, cure a você mesmo" (Lucas 4:23), ou "Por que reparas no grão de areia no olho de seu irmão, e não notas na trave que está no seu olho?" (Mateus 7:3).

Não importa o que a provoca, a ira cega os olhos da alma, impedindo-nos de ver o Sol da justiça. Folhas, quer sejam de ouro ou chumbo, colocadas sobre os olhos, obstruem a visão igualmente, pois o valor do ouro não afeta no grau de cegueira que produz. De igual modo,  a ira, se razoável ou não razoável, obstrui nossa visão espiritual. Nosso poder incensivo pode ser usado em uma via que está de acordo com a natureza apenas quando se volta contra nossos pensamentos apaixonados e auto-indulgentes. Isto é o que o Profeta ensina quando diz: "Perturbai-vos e não pequeis" (Salmo 4:4) que é, seja irado com suas próprias paixões e com seus pensamentos maliciosos, mas não peque por efetivar suas próprias sugestões. O que segue claramente confirma esta interpretação: "Falai-vos com o vosso coração sobre a vossa cama e arrependei-vos" (Salmo 4:4), isto é, quando pensamentos maliciosos entrarem no seu coração, expeli-os com raiva, e então volte para a compunção e ao arrependimento como se sua alma estivesse repousando na cama da quietude.

São Paulo concorda com isto quando ele cita esta passagem e então acrescenta: "Não permitais que o sol se ponha sob a vossa ira: e não dê guarida ao mal" (Efésios 4, 26:27), o que ele quer dizer: 'Não faça Cristo, o Sol da justiça, sair de vossa coração por irritá-lo pelo seu assentimento aos maus pensamentos, permitindo assim o demônio encontrar guarida em vosso coração, devido à partida de Cristo'. Deus falou deste Sol nas palavras deste profeta: "Mas sobre vós que temeis o meu Nome, nascerá o Sol da justiça, e cura trará nas suas asas" (Malaquias 4:2). Se nós tomamos o ensinamento de Paulo literalmente, ele não nos permite manter a nossa ira até o pôr do sol. O que nós podemos dizer sobre aqueles que, por causa da aspereza e fúria de seu estado apaixonado, não apenas mantém a sua ira até o pôr do sol, mas a prolongam por muitos dias? Ou sobre aqueles que não expressam a sua ira, mas mantém em silêncio e aumentam o veneno de seu rancor até sua própria destruição? Eles desconhecem que devemos evitar a ira não apenas no que fazemos mas também em nossos pensamentos: de outro modo, nosso intelecto será obscurecido pelo nosso rancor, cortada a luz do discernimento e conhecimento espiritual e privados da habitação do Espírito Santo. 

É por esta razão que o senhor nos ordena a deixar nossa oferta diante do altar e ser reconciliado com nosso irmão (Mateus 5: 23-24), já que nossa oferta não será aceita enquanto a ira  e o rancor estiverem dentro de nós. O apóstolo nos ensina a mesma coisa quando ele nos fala para "rezar sem cessar" (1 Tessalonicenses 5:17), e "rezar em todo lugar, levantando as mãos santas sem ira e contenda" (1 Timótheo 2:8). Desse modo, nós estamos assim com a escolha ou de nunca mais rezar, e assim desobedecer ao mandamento do apóstolo, ou de tentar cumpri-lo seriamente pela oração sem ira  ou rancor.

Nós somos frequentemente indiferentes aos nossos irmãos que estão chateados ou angustiados, com a justificativa de que eles estão nesse estado não por nossa culpa. O médico das almas, porém, desejando desenraizar da alma as desculpas do coração, conta-nos para deixar nossa oferta e sermos reconciliados não apenas se estamos chateados com nosso irmão, mas também se ele está chateado conosco, se justa ou injustamente; apenas quando nós nos curamos da violação através de nosso pedido de desculpas nós devemos oferecer nossos dons.

Podemos encontrar o mesmo ensinamento no Antigo Testamento também. Em completo acordo com o Evangelho, ele diz: "Não odeie o seu irmão no seu coração" (Levítico 19:17) e, "A via do rancor conduz à morte" (Provérbios 12:28). Tais passagens então não apenas proíbem a ira que somos capazes de fazer como também o pensamento cheio de raiva. Logo, se existimos para seguir as leis divinas, nós devemos lutar com toda a nossa força contra o demônio da ira e contra a doença que jaz oculta em nós. Quando estamos irados com os outros, nós não devemos procurar a solidão com a justificativa de que, pelo menos, ninguém nos provocará ira e que na solidão a virtude da longanimidade pode ser facilmente adquirida. Nosso desejo de deixar nossos irmãos se deve ao nosso orgulho, e porque nós não desejamos nos culpar e atribuir à nossa própria frouxidão, nossa falta de disciplina. Enquanto atribuímos a causa de nossa fraqueza aos outros, nós não podemos atingir a perfeição da longanimidade.

Auto-reforma e paz não são obtidos pela paciência que os outros nos mostram, mas por nossa própria longanimidade para com os irmãos. Quando tentamos escapar da luta pela longanimidade recuando na solidão, aquelas paixões não cicatrizadas que levamos conosco estão apenas ocultadas, não apagadas; pois, a menos que as paixões sejam primeiramente purgadas, a solidão e o abandono do mundo não vão apenas encorajá-los mas também encobri-los, não nos permitindo perceber qual é a paixão que nos escraviza. Pelo contrário, ela nos impõe uma ilusão de virtude e nos persuade a acreditar que nós alcançamos longanimidade e humildade, porque não há ninguém presente para nos testar e provocar. Mas logo que algo acontece que nos desperta e desafia, nossas paixões escondidas e de sapercebidas imediatamente saem como cavalos descontrolados que se mantém por muito tempo sem exercícios e ociosos, arrastando seu condutor mais violentamente e descontroladamente para a destruição. Nossas paixões crescem mais ferozmente quando ociosas por falta de contato com as pessoas. Mesmo a sombra de paciência e longanimidade que julgávamos possuir enquanto misturados aos nossos irmãos é perdida em nosso isolamento, já que elas não são exercidas. Criaturas venenosas que vivem em suas tocas no deserto revelam sua fúria apenas quando eles detectam alguém se aproximando; e, do mesmo modo, os homens cheios de paixão que vivem em silêncio não por causa de sua disposição virtuosa, mas por causa de sua solidão, cospem seu veneno sempre que alguém se aproxima e os provoca. E é por isso que aqueles que procuram a perfeita gentileza devem fazer todo o esforço para evitar a raiva não apenas para com os homens que deles se aproximam, mas também dos animais e mesmo dos objetos inanimados.

Eu posso lembrar como, quando eu vivi no deserto, eu me tornei irado com os juncos porque eles eram ou muito grossos ou muito finos; ou com um pedaço de madeira, quando eu quis cortá-lo de forma rápida e não podia; ou com uma pedra, quando eu estava apressado para acender o fogo e não vinha a faísca. Tão envolvente era  a minha raiva que ela surgia contra objetos inanimados.

Se então você deseja receber as bençãos de Deus você deve coibir não apenas a expressão externa de raiva, mas também os pensamentos de raiva. Mais benéfico do que controlar a nossa língua em um momento de raiva e refreá-la de emitir palavras iradas é purificar o nosso coração do rancor e não abrigar pensamentos maliciosos contra os nossos irmãos. O Evangelho ensina a extirpar as raízes de nosso pecado e não apenas os seus frutos. Quando tivermos cavado as raízes da raiva em nosso coração, não agiremos mais com ódio ou inveja. "Aquele que odeia seu irmão é um homicida" (1 João 3:15), pois ele o mata com ódio em sua mente. O sangue de um homem que foi morto pela espada pode ser visto pelos homens, mas o sangue alimentado pelo ódio na mente é visto por Deus, que recompensa cada homem com o castigo ou a coroa não apenas mediante seus atos, mas também por seus pensamentos e intenções. Como o próprio Deus disse pelos profetas: "Eis que estou vindo recompensá-los de acordo com suas ações e pensamentos" (Ecclus, 35:19) e o Apóstolo diz: "No dia em que Deus há de julgar os segredos dos homens, testificando sua consciência e seus pensamentos, ora os acusando, ora os desculpando". (Romanos 2, 15-16). O próprio Senhor nos ensina a por de lado toda a ira quando ele diz: "Quem está irado com seu irmão estará em perigo no dia do julgamento" (Mateus 5: 22). Este é o texto dos melhores manuscritos; pois é claro da proposta da Escritura neste contexto que as palavras "sem uma causa" foram adicionadas mais tarde. A intenção do Senhor é que devemos remover a raiz de toda raiva, seu fulgor, por assim dizer, em qualquer meio que pudermos, e não manter qualquer pretexto singular de ira em nossos corações. De outro modo nós seremos excitados para a ira inicialmente por aquilo que parece ter uma boa razão e então descobriremos que nosso poder incensivo está totalmente fora de controle.

A cura final para a doença é realizar aquilo que devemos para não nos tornarmos irados por qualquer razão que seja, mesmo se justa ou injusta. Quando o demônio da ira obscureceu a nossa mente, nós não ficamos nem com a luz do discernimento, nem a garantia do verdadeiro juízo, nem com a orientação da justiça e nossa alma não pode tornar-se o templo do Espírito Santo. Finalmente, nós devemos sempre carregar em nossa mente a ignorância do tempo de nossa morte mantendo-nos fora da ira e reconhecendo que nem o auto-controle, nem a renúncia de todas as coisas materiais, nem jejuns ou vigílias, são de qualquer benefício se nós nos encontramos culpados no dia do juízo final, por sermos escravos da ira e do ódio. 


Orthodox Hesychasm
A verdadeira hesíquia, quietude, pressupõe desenraizar toda a raiva, mesmo aquela por motivos justos. 


sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Sobre a avareza

Continuação do post anterior
Páginas 77 a 82
Tradução da versão inglesa de Rochelle Cysne

Sobre a avareza

Nossa terceira luta é contra o demônio da avareza, um demônio claramente estranho à nossa natureza, que apenas entra no monge quando lhe está faltando fé. As outras paixões, tais como ira e desejo, parecem ser ocasionadas pelo corpo e em algum sentido implantadas em nós desde o nascimento. Por isso eles são admitidos depois de algum tempo. A doença da avareza, ao contrário, pode com diligência e atenção ser interrompida literalmente, já que ela tem uma origem externa. Se negligenciada, porém, ela se torna mais difícil de ser eliminada e a mais destrutiva de todas as paixões, pois de acordo com o Apóstolo "a raiz de todos os pecados está no amor ao dinheiro". (I Tim. 6:10)

É assim que analisaremos tudo isto. O movimento ocorre nos órgãos sexuais não apenas de jovens crianças que não podem distinguir entre bem e mal, mas também nas mais pequeninas crianças que ainda estão amamentando. As últimas, apesar de praticamente ignorantes dos prazeres sexuais, manifestam, no entanto, tais movimentos naturais na carne. De modo similar, o poder incensivo existe nas crianças, como podemos constatar quando elas se voltam contra quem as machuca. Eu digo isso não para acusar a natureza de ser a causa do pecado - Deus nos livre! - mas para mostrar que o poder incensivo e o desejo, mesmo se implantados no homem pelo Criador para bons propósitos, parecem alterar-se devido à nossa negligência de algo natural para algo não natural. O movimento nos órgãos sexuais nos foi dado pelo Criador para a procriação e a perpetuação da espécie, não para a fornicação; enquanto o poder incensivo foi plantado em nós para nossa salvação, de modo que possamos manifestá-lo contra a perversão, mas não que possamos agir como bestas selvagens para com nossos próximos. Mesmo que façamos mau uso destas paixões, a natureza em si mesma não é a fonte do pecado, nem devemos culpar o Criador. Um homem que dá a alguém uma faca para alguma necessidade e útil propósito não é culpado se o receptor a usa para cometer um assassinato.

Isto foi dito para esclarecer que a avareza é uma paixão de origem externa, não advém de nossa natureza, mas somente de um uso ruim e pervertido de nossa livre vontade. Quando esta doença encontra a alma morna e fraca na fé, ainda no princípio de seu caminho ascético, ela sugere para nós várias razões sensíveis e justificáveis para tomar de volta algo do qual tínhamos posse. Ela conjura na mente de um monge o retrato de sua velhice e doenças corporais, persuadindo-o de que as necessidades da vida garantidas no mosteiro são insuficientes para manter um homem são, ainda menos para manter um homem doente; que nos mosteiros os doentes, ainda que recebam atenção, são dificilmente cuidados como devem; e que, a menos que se tenha algum dinheiro guardado, ele irá morrer de uma morte miserável. E finalmente, convence-o de que ele não será capaz de permanecer por muito tempo no mosteiro pela grande carga de tarefas e rigor do abade. Quando com pensamentos como estes acaba por seduzir sua mente com a idéia de guardar qualquer quantia, ainda que pouca, e convence-o a aprender, mesmo que por desconhecimento do abade, algum ofício mediante o qual ele possa aumentar seus rendimentos. Então ele engana o pobre monge com esperanças ocultas, fazendo-o imaginar que ele ganhará por meio de seu ofício o conforto e a segurança que dele resultam. Então, completamente tomado pelo desejo de ganho, ele não percebe nenhuma das más paixões que o atacam: expressa fúria violenta quando fica aquém do ganho esperado. Como para as outras pessoas a barriga é um deus, para este é o dinheiro. E é por esta razão que o apóstolo, sabendo disso, chama a avareza não apenas a "raiz de todos os pecados", mas a "idolatria" enquanto tal.

Como é que esta doença pode perverter tanto o homem a ponto dele terminar como um idólatra? É porque ele passa a fixar seu intelecto no amor, não para com Deus, e sim do homem estampado na moeda. Um monge obscurecido por tais pensamentos e lançado a este abismo não pode ser mais obediente. Ele fica irritado e ressentido, e resmunga em toda tarefa. Tendo perdido seu senso de respeito, ele se comporta como um teimoso, um cavalo incontrolável. Ele não está satisfeito com a ração diária de comida e reclama que não pode viver em tais condições para sempre. Ele diz que nem a presença de Deus, nem a sua salvação são privilégios do mosteiro; e assim, ele conclui que ele perecerá se ele não deixá-lo. E assim excitado e encorajado em tais pensamentos perversos, ele secretamente arma planos de deixar o mosteiro. Em seguida, ele responde orgulhosa e duramente que não importa o que se lhe digam e ele não presta atenção se há algo no mosteiro que precisa de reparo, considerando-se a si mesmo estranho àquele lugar, e encontrando falhas com tudo o que acontece. Então ele procura encontrar justificativas de estar irado e injuriado, para que não pareça que ele esteja deixando o mosteiro por motivos frívolos, sem alguma causa justa. E ele não se exime de tentar seduzir alguém por meio de fofocas e conversa fiada a deixar o mosteiro com ele, desejando ter um cúmplice de sua ação pecaminosa.

Porque o monge avarento está tão aceso com desejo de bens privados que ele nunca será capaz de viver em paz no mosteiro ou na sujeição de uma regra. Quando, como um lobo, o demônio já o arrancou do rebanho e separou-o dos demais, ele se prepara para devorá-lo; ele o põe a trabalhar dia e noite em sua cela queixando-se de fazer nos horários fixos. Mas o demônio não o permite manter as orações e normas regulares de jejum e vigília, amarrando-o rapidamente na loucura da avareza, o demônio o persuade a devotar todos os seus esforços ao seu ofício.

Há três tipos destas doenças, todas são igualmente condenadas pelas Sagradas Escrituras e os ensinamentos dos Padres. A primeira induz aqueles que eram pobres a guardar e salvar os bens que não tinham no mundo. A segunda compele àqueles que renunciaram aos bens mundanos para oferecê-los a Deus, a ter arrependimentos e a buscá-los novamente. A terceira infeta o monge desde o início pela falta de fé e ardor, evitando assim seu desprendimento completo das coisas mundanas, produzindo nele um medo da pobreza e uma desconfiança na Providência Divina e conduzindo-o a quebrar as promessas que ele fez quando renunciou ao mundo.

Exemplos destas três formas de avareza são, como eu disse, condenadas pelas Sagradas Escrituras. Gehasi quis adquirir propriedade que não possuía previamente e consequentemente nunca recebeu a graça profética que seu mestre tinha a intenção de deixar para ele no lugar de uma herança. Por causa da maldição do profeta, ele herdou uma lepra incurável no lugar de uma benção (2 Reis 5:27).  E Judas, que desejou adquirir dinheiro que já tinha sido previamente abandonado pelos seguidores de Jesus, chegou a trair seu Mestre e perder seu lugar no círculo dos Apóstolos; e também pôs fim à sua própria vida mediante uma morte violenta (Mateus 27:5). Em terceiro lugar, Ananias e Safira foram condenados à morte pela palavra do Apóstolo quando tomaram de volta alguma coisa que haviam adquirido (Atos 5:1-10). Novamente, em Deuteronômio, Moisés está indiretamente exortando aqueles que prometeram renunciar o mundo e que insistem em manter seus bens devido ao medo e à falta de fé quando diz: "Qual é o homem medroso e de coração tímido? Vá e volte à sua casa, para que o coração de seus irmãos não seja como o seu coração". (Deut 20:8). Pode algo ser mais claro e mais certo do que este testemunho? Não devíamos nós que de deixamos o mundo aprender destes exemplos a renunciar a ele completamente e neste estágio enfrentar a batalha que nos espera? Nós devemos nos transformar em outras pessoas a partir da perfeição ensinada nos Evangelhos e não fazê-lo covardemente por conta  de uma motivação hesitante e débil.

Alguns, impelidos pelo seu próprio engano e avareza, distorcem o significado das sentença bíblica, "é mais abençoado dar do que receber" (Atos 20:35). Eles fazem o mesmo com a palavra do Senhor quando Ele diz, "se queres ser perfeito, vai vende tudo o que tens, dá aos pobres, e encontrarás um tesouro nos Céus; depois vem e me segue" (Mateus 19:21).  Eles julgam que é mais abençoado ter controle sobre a riqueza pessoal e dar de presente àqueles que precisam, do que não ter nada. Eles devem saber, porém, que assim ele não renunciam ao mundo, nem alcançam a perfeição monástica na medida em que estão envergonhados de aceitar por amor a Cristo a pobreza dos Apóstolos e de sustentar a si e aos necessitados apenas por meio do suor de suas mãos (Atos 20:34); apenas neste sentido eles cumprirão a profissão monástica e serão
glorificados com os Apóstolos. tendo distribuído sua riqueza, lutarão então o bom combate com Paulo "com fome e sede... no frio e na nudez" (2Cor. 11:27). Se o Apóstolo tivesse pensado que a posse da própria riqueza era necessária à salvação ele não teria renunciando seu status oficial de cidadão romano (Atos 22:25). Nem aqueles em Jerusalém teriam vendido suas casas e campos e dado o dinheiro aos Apóstolos (Atos 4: 34-35), eles teriam sentido que era mais abençoado viver de suas próprias riquezas do que de seu próprio suor e das ofertas dos gentios.

O Apóstolo nos dá uma clara lição neste sentido quando ele escreve aos Romanos no início da passagem "Mas agora eu vou à Jerusalém ministrar aos santos" e termina "eles estavam satisfeitos de fazer isso, como devedores que são para com eles" (Romanos 15: 25-27). Ele próprio esteve em cadeias, na prisão ou em viagem fatigante, e assim frequentemente impedido de garantir para si mesmo provento com suas próprias mãos. Ele nos conta que aceitou que os irmãos da Macedônia suprissem suas necessidades ( 2Cor. 11:9) e escrevendo aos Filipenses disse: "Agora, vocês Filipenses sabem também que..quando parti da Macedônia nenhuma igreja exceto a de vocês ajudou-me com dar e receber. Pois em Tessalônia me enviaram ajuda, não uma senão duas vezes." (Filipenses 4: 15-16). Então estão certos os avarentos e são mais abençoados do que o próprio Apóstolo por satisfazerem suas necessidades com seus próprios recursos? Seguramente ninguém seria tão tolo a ponto de dizer isso.

Se você quer seguir os mandamentos do Evangelho e a prática de toda a Igreja quando ela foi fundada inicialmente pelos primeiros Apóstolos, você não deve seguir suas próprias noções ou dar um significado errado às coisas escritas retamente. Você deve descartar o coração fraco, a opinião sem fé e recuperar a estreiteza do Evangelho. Neste sentido nós devemos ser capazes de seguir também os passos dos Padres, aderindo à disciplina da vida cenobítica e verdadeiramente renunciando ao mundo.

É bom lembrar aqui as palavras de São Basílio, bispo de Cesaréia, na Capadócia. Ele relata uma vez ter dito ao senador, que renunciou ao mundo pela metade e que ainda mantinha alguma coisa de sua fortuna pessoal: "Você perdeu o senador e falhou ao fazer-se monge". Logo, nós devemos fazer todo esforço para extirpar de nosso coração esta raiz de todos os males, a avareza, na certeza de que, se a raiz permanece, os frutos brotarão livremente.

Esta extirpação é difícil de alcançar a menos que se viva em um mosteiro, pois no mosteiro deixamos de nos preocupar com nossos necessidades básicas. Com o destino de Ananias e Saphira em mente, nós devemos
dispensar o pensamento de manter para nós mesmos qualquer coisa de nossas posses. Similarmente, apavorado pelo exemplo de Gehazi que foi afligido com lepra incurável por conta de sua avareza, guarde-mo-nos de acumular dinheiro enquanto estivermos no mundo. E finalmente, lembrando a morte de Judas por enforcamento, sejamos cautelosos de adquirir novamente qualquer coisa da qual já havíamos renunciado. Em tudo isso nós devemos lembrar quão incerta é a hora de nossa morte, para que nosso Senhor não chegue inesperadamente, encontrando nossa consciência conspurcada pela avareza, e diga para nós o que Deus fala ao jovem rico no Evangelho: "Você tolo, esta noite sua alma será pedida: e o que temos preparado, para quem será?". (Lucas 12:20).

 Monge hesicasta do deserto.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Sobre o demônio da luxúria e o desejo da carne

Continuação do post anterior.
Páginas 75 a 77
tradução da versão em inglês por Rochelle Cysne

Sobre o demônio da luxúria (falta de castidade) e o desejo da carne

Nossa segunda luta é contra o demônio da luxúria e o desejo da carne, um desejo que começa por perturbar o homem desde o início de sua juventude. Esta dura luta tem de ser enfrentada tanto na alma quanto no corpo, e não apenas na alma, como é o caso de outras falhas. Consequentemente temos de lutar em duas frentes.

Jejum corporal não é suficiente para ocasionar o autocontrole e a verdadeira pureza; ele deve ser acompanhado pela contrição do coração, oração intensa a Deus, meditação frequente nas Escrituras e trabalho manual. Estas ferramentas são capazes de checar as inquietudes da alma e recordá-la de suas fantasias vergonhosas. Humildade de alma ajuda mais do que tudo e sem ela ninguém pode superar a luxúria ou qualquer outro pecado. Em primeiro lugar, então, nós devemos tomar o maior cuidado em guardar nosso coração de certos pensamentos, pois, de acordo com o Senhor, 'do coração procedem os maus pensamentos, assassinatos, adultérios, luxúria", etc. (Mat. 15:19)

Nós falamos da necessidade de jejuar não apenas para mortificar nosso corpo, mas também para manter nosso intelecto atento de modo que não seja obnubilado pelo excesso de comida que ingerimos e, assim, seja incapaz de fazer a guarda dos pensamentos. Logo não devemos gastar todo nosso esforço em jejuns corporais; nós devemos também prestar atenção em nossos pensamentos e em nossa meditação espiritual, já que de outro modo não seremos capazes de avançar às alturas da verdadeira pureza e castidade. Como Nosso Senhor disse, nós devemos "primeiro limpar o interior do prato e do copo, para que seu exterior seja também limpo". (Mat. 23:26)

Se estamos realmente ansiosos, como o Apóstolo aponta, para 'lutar' e para ser 'aperfeiçoados' (2 Tim 2:5) de modo a superar o espírito de luxúria, nós não devemos confiar em nossa própria força e prática ascética, mas na ajuda de nosso Mestre, nosso Deus. Ninguém deixa de ser atacado por este demônio a menos que verdadeiramente creia que será curado e que atingirá o cume da pureza não por meio de seus próprios esforços e trabalhos, mas mediante a ajuda e proteção de Deus. Pois tal vitória está além dos poderes naturais humanos. De fato, aquele que pisou nos prazeres e provocações da carne está de certo modo alheio ao próprio corpo. Destarte, ninguém pode ganhar a este alto e celestial prêmio com suas próprias asas e aprender a imitar os anjos, a menos que a graça de Deus o conduza para cima de sua lama terrena.

Nenhuma virtude faz do homem encarnado semelhante a um espírito angélico como o auto-controle, pois ele capacita aqueles que vivem ainda na terra a tornarem-se, como disse o Apóstolo, 'cidadãos dos céus'. Um sinal de que atingimos essa virtude perfeitamente é que nossa alma ignora aquelas imagens que produzem fantasias profanas durante o sono; pois ainda que a produção de tais imagens não seja pecado, é, no entanto, sinal de que a alma está doente e que ela não foi libertada das paixões. Logo, nós devemos considerar as fantasias profanas que nascem em nós durante o sono como prova de indolência e fraqueza existindo em nós, uma vez que a imagem que aparece em nós quando estamos relaxados no sono revela a doença que jaz oculta em nossas almas. Por causa disso, o Doutor de nossas almas também colocou o remédio nas regiões ocultas da alma, reconhecendo que a causa de nossa doença repousa lá. Por isso ele diz: "Quem olha para uma mulher com luxúria já cometeu adultério em seu coração" (Matt, 5: 28). Ele procura corrigir não tanto nossos olhos incastos como a alma que faz mal uso dos olhos dados por Deus para bons propósitos. E é por isso que o livro dos Provérbios, na sua sabedoria não diz: "Guarde seus olhos com toda a diligência" mas sim "Guarde seu coração com toda a diligência" (Prov. 4:23), impondo o remédio da diligência em primeiro lugar sobre aquele que faz uso dos olhos de acordo com os propósitos que deseja.

A maneira de manter guarda sobre nosso coração é expelir imediatamente da mente toda lembrança das mulheres, recordação esta inspirada pelos demônios  - mesmo da mãe, da irmã ou de uma mulher devota - para que dando habitação por muito tempo a estes pensamentos na mente, ela seja lançada pelo enganador em pensamentos degradantes e perniciosos. O mandamento dado por Deus ao primeiro homem, Adão, dizia-lhe para manter  vigilância sobre a influência da serpente (cf. Gen. 3:15, LXX) ou seja, sobre as primeiras noções acerca dos pensamentos perniciosos por meio dos quais a serpente tenta influenciar nossa alma. Se nós não admitimos a   influência da serpente, que é a provocação do pensamento, nós não admitiremos o resto que é o assentimento aos prazeres sensuais que o pensamento sugere e assim rebaixa a mente para atos ilícitos.

Como está escrito, nós devemos 'pela manhã destruir todos os ímpios da terra' (Salmos 101:8), distinguindo à luz do conhecimento divino nossos pensamentos pecaminosos e então erradicando-os completamente da terra - nossos corações - de acordo com os ensinamentos do Senhor. Enquanto as crianças da Babilônia - pelas quais quero dizer nosso pensamentos perversos - são ainda jovens, nós podemos atirá-las ao chão e lançá-las contra a pedra que é o Cristo (Salmo 137: 9/ 1 Cor. 10:4). Se estes pensamentos crescem mais fortes por lhes darmos assentimento, nós não seremos capazes de superá-los sem muita dor e trabalho.

É bom lembrar os ditos dos Padres bem como as passagens das Sagradas Escrituras citadas acima. Por exemplo, São Basílio, Bispo de Cesaréia na Capadócia, disse: "Eu não conhecia mulher e não era ainda virgem".  Ele reconheceu que o dom da virgindade é alcançado não tanto por abstenção de relação com mulher e sim pela santidade e pureza de alma que por sua vez é obtida pelo temor de Deus. Os Padres também dizem que nós não podemos adquirir totalmente a real humildade do coração. E não nos será concedido o verdadeiro conhecimento espiritual enquanto a paixão da luxúria permanecer oculta nas profundezas de nossa alma.

Para finalizar esta seção de nosso trabalho, lembraremos um dos ditos do Apóstolo que ilustra seu ensinamento para adquirir autocontrole. Ele diz: "Segui a paz com todos e a santificação sem a qual ninguém verá o senhor" (Hebreus 12:14). É claro que ele está falando aqui também acerca do autocontrole: "E ninguém seja devasso e profano como Esaú que vendeu seu direito de primogenitura por um prato de lentilhas" (Hebreus 12: 16). No grau mais elevado de santidade a que podemos chegar, o mais pesado são os ataques dos inimigos a que nossa alma pode estar submetida. Logo devemos alcançar não apenas controle corporal, mas também contrição do coração com frequentes orações de arrependimento, para que com o orvalho do Espírito Santo, possamos apagar o fogo de nossa carne, acendido diariamente pelo rei da Babilônia, o fole do desejo. (Dan, 3:19). Além disso, uma grande arma nos foi dada em forma das sagradas vigílias; pois assim como a observação que mantemos sobre nossos pensamentos durante o dia traz santidade à noite, assim também a vigília à noite traz pureza à alma durante o dia".





"Orai sem cessar" (1Ts 5: 17)