Continuação do post anterior
Páginas 77 a 82
Tradução da versão inglesa de Rochelle Cysne
Sobre a avareza
Nossa terceira luta é contra o demônio da avareza, um demônio claramente estranho à nossa natureza, que apenas entra no monge quando lhe está faltando fé. As outras paixões, tais como ira e desejo, parecem ser ocasionadas pelo corpo e em algum sentido implantadas em nós desde o nascimento. Por isso eles são admitidos depois de algum tempo. A doença da avareza, ao contrário, pode com diligência e atenção ser interrompida literalmente, já que ela tem uma origem externa. Se negligenciada, porém, ela se torna mais difícil de ser eliminada e a mais destrutiva de todas as paixões, pois de acordo com o Apóstolo "a raiz de todos os pecados está no amor ao dinheiro". (I Tim. 6:10)
É assim que analisaremos tudo isto. O movimento ocorre nos órgãos sexuais não apenas de jovens crianças que não podem distinguir entre bem e mal, mas também nas mais pequeninas crianças que ainda estão amamentando. As últimas, apesar de praticamente ignorantes dos prazeres sexuais, manifestam, no entanto, tais movimentos naturais na carne. De modo similar, o poder incensivo existe nas crianças, como podemos constatar quando elas se voltam contra quem as machuca. Eu digo isso não para acusar a natureza de ser a causa do pecado - Deus nos livre! - mas para mostrar que o poder incensivo e o desejo, mesmo se implantados no homem pelo Criador para bons propósitos, parecem alterar-se devido à nossa negligência de algo natural para algo não natural. O movimento nos órgãos sexuais nos foi dado pelo Criador para a procriação e a perpetuação da espécie, não para a fornicação; enquanto o poder incensivo foi plantado em nós para nossa salvação, de modo que possamos manifestá-lo contra a perversão, mas não que possamos agir como bestas selvagens para com nossos próximos. Mesmo que façamos mau uso destas paixões, a natureza em si mesma não é a fonte do pecado, nem devemos culpar o Criador. Um homem que dá a alguém uma faca para alguma necessidade e útil propósito não é culpado se o receptor a usa para cometer um assassinato.
Isto foi dito para esclarecer que a avareza é uma paixão de origem externa, não advém de nossa natureza, mas somente de um uso ruim e pervertido de nossa livre vontade. Quando esta doença encontra a alma morna e fraca na fé, ainda no princípio de seu caminho ascético, ela sugere para nós várias razões sensíveis e justificáveis para tomar de volta algo do qual tínhamos posse. Ela conjura na mente de um monge o retrato de sua velhice e doenças corporais, persuadindo-o de que as necessidades da vida garantidas no mosteiro são insuficientes para manter um homem são, ainda menos para manter um homem doente; que nos mosteiros os doentes, ainda que recebam atenção, são dificilmente cuidados como devem; e que, a menos que se tenha algum dinheiro guardado, ele irá morrer de uma morte miserável. E finalmente, convence-o de que ele não será capaz de permanecer por muito tempo no mosteiro pela grande carga de tarefas e rigor do abade. Quando com pensamentos como estes acaba por seduzir sua mente com a idéia de guardar qualquer quantia, ainda que pouca, e convence-o a aprender, mesmo que por desconhecimento do abade, algum ofício mediante o qual ele possa aumentar seus rendimentos. Então ele engana o pobre monge com esperanças ocultas, fazendo-o imaginar que ele ganhará por meio de seu ofício o conforto e a segurança que dele resultam. Então, completamente tomado pelo desejo de ganho, ele não percebe nenhuma das más paixões que o atacam: expressa fúria violenta quando fica aquém do ganho esperado. Como para as outras pessoas a barriga é um deus, para este é o dinheiro. E é por esta razão que o apóstolo, sabendo disso, chama a avareza não apenas a "raiz de todos os pecados", mas a "idolatria" enquanto tal.
Como é que esta doença pode perverter tanto o homem a ponto dele terminar como um idólatra? É porque ele passa a fixar seu intelecto no amor, não para com Deus, e sim do homem estampado na moeda. Um monge obscurecido por tais pensamentos e lançado a este abismo não pode ser mais obediente. Ele fica irritado e ressentido, e resmunga em toda tarefa. Tendo perdido seu senso de respeito, ele se comporta como um teimoso, um cavalo incontrolável. Ele não está satisfeito com a ração diária de comida e reclama que não pode viver em tais condições para sempre. Ele diz que nem a presença de Deus, nem a sua salvação são privilégios do mosteiro; e assim, ele conclui que ele perecerá se ele não deixá-lo. E assim excitado e encorajado em tais pensamentos perversos, ele secretamente arma planos de deixar o mosteiro. Em seguida, ele responde orgulhosa e duramente que não importa o que se lhe digam e ele não presta atenção se há algo no mosteiro que precisa de reparo, considerando-se a si mesmo estranho àquele lugar, e encontrando falhas com tudo o que acontece. Então ele procura encontrar justificativas de estar irado e injuriado, para que não pareça que ele esteja deixando o mosteiro por motivos frívolos, sem alguma causa justa. E ele não se exime de tentar seduzir alguém por meio de fofocas e conversa fiada a deixar o mosteiro com ele, desejando ter um cúmplice de sua ação pecaminosa.
Porque o monge avarento está tão aceso com desejo de bens privados que ele nunca será capaz de viver em paz no mosteiro ou na sujeição de uma regra. Quando, como um lobo, o demônio já o arrancou do rebanho e separou-o dos demais, ele se prepara para devorá-lo; ele o põe a trabalhar dia e noite em sua cela queixando-se de fazer nos horários fixos. Mas o demônio não o permite manter as orações e normas regulares de jejum e vigília, amarrando-o rapidamente na loucura da avareza, o demônio o persuade a devotar todos os seus esforços ao seu ofício.
Há três tipos destas doenças, todas são igualmente condenadas pelas Sagradas Escrituras e os ensinamentos dos Padres. A primeira induz aqueles que eram pobres a guardar e salvar os bens que não tinham no mundo. A segunda compele àqueles que renunciaram aos bens mundanos para oferecê-los a Deus, a ter arrependimentos e a buscá-los novamente. A terceira infeta o monge desde o início pela falta de fé e ardor, evitando assim seu desprendimento completo das coisas mundanas, produzindo nele um medo da pobreza e uma desconfiança na Providência Divina e conduzindo-o a quebrar as promessas que ele fez quando renunciou ao mundo.
Exemplos destas três formas de avareza são, como eu disse, condenadas pelas Sagradas Escrituras. Gehasi quis adquirir propriedade que não possuía previamente e consequentemente nunca recebeu a graça profética que seu mestre tinha a intenção de deixar para ele no lugar de uma herança. Por causa da maldição do profeta, ele herdou uma lepra incurável no lugar de uma benção (2 Reis 5:27). E Judas, que desejou adquirir dinheiro que já tinha sido previamente abandonado pelos seguidores de Jesus, chegou a trair seu Mestre e perder seu lugar no círculo dos Apóstolos; e também pôs fim à sua própria vida mediante uma morte violenta (Mateus 27:5). Em terceiro lugar, Ananias e Safira foram condenados à morte pela palavra do Apóstolo quando tomaram de volta alguma coisa que haviam adquirido (Atos 5:1-10). Novamente, em Deuteronômio, Moisés está indiretamente exortando aqueles que prometeram renunciar o mundo e que insistem em manter seus bens devido ao medo e à falta de fé quando diz: "Qual é o homem medroso e de coração tímido? Vá e volte à sua casa, para que o coração de seus irmãos não seja como o seu coração". (Deut 20:8). Pode algo ser mais claro e mais certo do que este testemunho? Não devíamos nós que de deixamos o mundo aprender destes exemplos a renunciar a ele completamente e neste estágio enfrentar a batalha que nos espera? Nós devemos nos transformar em outras pessoas a partir da perfeição ensinada nos Evangelhos e não fazê-lo covardemente por conta de uma motivação hesitante e débil.
Alguns, impelidos pelo seu próprio engano e avareza, distorcem o significado das sentença bíblica, "é mais abençoado dar do que receber" (Atos 20:35). Eles fazem o mesmo com a palavra do Senhor quando Ele diz, "se queres ser perfeito, vai vende tudo o que tens, dá aos pobres, e encontrarás um tesouro nos Céus; depois vem e me segue" (Mateus 19:21). Eles julgam que é mais abençoado ter controle sobre a riqueza pessoal e dar de presente àqueles que precisam, do que não ter nada. Eles devem saber, porém, que assim ele não renunciam ao mundo, nem alcançam a perfeição monástica na medida em que estão envergonhados de aceitar por amor a Cristo a pobreza dos Apóstolos e de sustentar a si e aos necessitados apenas por meio do suor de suas mãos (Atos 20:34); apenas neste sentido eles cumprirão a profissão monástica e serão
glorificados com os Apóstolos. tendo distribuído sua riqueza, lutarão então o bom combate com Paulo "com fome e sede... no frio e na nudez" (2Cor. 11:27). Se o Apóstolo tivesse pensado que a posse da própria riqueza era necessária à salvação ele não teria renunciando seu status oficial de cidadão romano (Atos 22:25). Nem aqueles em Jerusalém teriam vendido suas casas e campos e dado o dinheiro aos Apóstolos (Atos 4: 34-35), eles teriam sentido que era mais abençoado viver de suas próprias riquezas do que de seu próprio suor e das ofertas dos gentios.
O Apóstolo nos dá uma clara lição neste sentido quando ele escreve aos Romanos no início da passagem "Mas agora eu vou à Jerusalém ministrar aos santos" e termina "eles estavam satisfeitos de fazer isso, como devedores que são para com eles" (Romanos 15: 25-27). Ele próprio esteve em cadeias, na prisão ou em viagem fatigante, e assim frequentemente impedido de garantir para si mesmo provento com suas próprias mãos. Ele nos conta que aceitou que os irmãos da Macedônia suprissem suas necessidades ( 2Cor. 11:9) e escrevendo aos Filipenses disse: "Agora, vocês Filipenses sabem também que..quando parti da Macedônia nenhuma igreja exceto a de vocês ajudou-me com dar e receber. Pois em Tessalônia me enviaram ajuda, não uma senão duas vezes." (Filipenses 4: 15-16). Então estão certos os avarentos e são mais abençoados do que o próprio Apóstolo por satisfazerem suas necessidades com seus próprios recursos? Seguramente ninguém seria tão tolo a ponto de dizer isso.
Se você quer seguir os mandamentos do Evangelho e a prática de toda a Igreja quando ela foi fundada inicialmente pelos primeiros Apóstolos, você não deve seguir suas próprias noções ou dar um significado errado às coisas escritas retamente. Você deve descartar o coração fraco, a opinião sem fé e recuperar a estreiteza do Evangelho. Neste sentido nós devemos ser capazes de seguir também os passos dos Padres, aderindo à disciplina da vida cenobítica e verdadeiramente renunciando ao mundo.
É bom lembrar aqui as palavras de São Basílio, bispo de Cesaréia, na Capadócia. Ele relata uma vez ter dito ao senador, que renunciou ao mundo pela metade e que ainda mantinha alguma coisa de sua fortuna pessoal: "Você perdeu o senador e falhou ao fazer-se monge". Logo, nós devemos fazer todo esforço para extirpar de nosso coração esta raiz de todos os males, a avareza, na certeza de que, se a raiz permanece, os frutos brotarão livremente.
Esta extirpação é difícil de alcançar a menos que se viva em um mosteiro, pois no mosteiro deixamos de nos preocupar com nossos necessidades básicas. Com o destino de Ananias e Saphira em mente, nós devemos
dispensar o pensamento de manter para nós mesmos qualquer coisa de nossas posses. Similarmente, apavorado pelo exemplo de Gehazi que foi afligido com lepra incurável por conta de sua avareza, guarde-mo-nos de acumular dinheiro enquanto estivermos no mundo. E finalmente, lembrando a morte de Judas por enforcamento, sejamos cautelosos de adquirir novamente qualquer coisa da qual já havíamos renunciado. Em tudo isso nós devemos lembrar quão incerta é a hora de nossa morte, para que nosso Senhor não chegue inesperadamente, encontrando nossa consciência conspurcada pela avareza, e diga para nós o que Deus fala ao jovem rico no Evangelho: "Você tolo, esta noite sua alma será pedida: e o que temos preparado, para quem será?". (Lucas 12:20).
Monge hesicasta do deserto.
Esse blog pretende divulgar traduções de textos em grego, francês, inglês e espanhol, com o intuito de divulgar o pensamento bizantino. Pretende-se com isso ajudar os estudantes de filosofia e teologia a saber diferenciar as nuances do cristianismo oriental, bem como a orientar a todos os que anseiam por espiritualidade profunda a conhecer as obras dos Padres da Filocalia. Antes de rejeitar o cristianismo, é preciso conhecê-lo. Impossível rejeitá-lo, depois disso.
sexta-feira, 28 de setembro de 2012
quinta-feira, 27 de setembro de 2012
Sobre o demônio da luxúria e o desejo da carne
Continuação do post anterior.
Páginas 75 a 77
tradução da versão em inglês por Rochelle Cysne
Sobre o demônio da luxúria (falta de castidade) e o desejo da carne
Nossa segunda luta é contra o demônio da luxúria e o desejo da carne, um desejo que começa por perturbar o homem desde o início de sua juventude. Esta dura luta tem de ser enfrentada tanto na alma quanto no corpo, e não apenas na alma, como é o caso de outras falhas. Consequentemente temos de lutar em duas frentes.
Jejum corporal não é suficiente para ocasionar o autocontrole e a verdadeira pureza; ele deve ser acompanhado pela contrição do coração, oração intensa a Deus, meditação frequente nas Escrituras e trabalho manual. Estas ferramentas são capazes de checar as inquietudes da alma e recordá-la de suas fantasias vergonhosas. Humildade de alma ajuda mais do que tudo e sem ela ninguém pode superar a luxúria ou qualquer outro pecado. Em primeiro lugar, então, nós devemos tomar o maior cuidado em guardar nosso coração de certos pensamentos, pois, de acordo com o Senhor, 'do coração procedem os maus pensamentos, assassinatos, adultérios, luxúria", etc. (Mat. 15:19)
Nós falamos da necessidade de jejuar não apenas para mortificar nosso corpo, mas também para manter nosso intelecto atento de modo que não seja obnubilado pelo excesso de comida que ingerimos e, assim, seja incapaz de fazer a guarda dos pensamentos. Logo não devemos gastar todo nosso esforço em jejuns corporais; nós devemos também prestar atenção em nossos pensamentos e em nossa meditação espiritual, já que de outro modo não seremos capazes de avançar às alturas da verdadeira pureza e castidade. Como Nosso Senhor disse, nós devemos "primeiro limpar o interior do prato e do copo, para que seu exterior seja também limpo". (Mat. 23:26)
Se estamos realmente ansiosos, como o Apóstolo aponta, para 'lutar' e para ser 'aperfeiçoados' (2 Tim 2:5) de modo a superar o espírito de luxúria, nós não devemos confiar em nossa própria força e prática ascética, mas na ajuda de nosso Mestre, nosso Deus. Ninguém deixa de ser atacado por este demônio a menos que verdadeiramente creia que será curado e que atingirá o cume da pureza não por meio de seus próprios esforços e trabalhos, mas mediante a ajuda e proteção de Deus. Pois tal vitória está além dos poderes naturais humanos. De fato, aquele que pisou nos prazeres e provocações da carne está de certo modo alheio ao próprio corpo. Destarte, ninguém pode ganhar a este alto e celestial prêmio com suas próprias asas e aprender a imitar os anjos, a menos que a graça de Deus o conduza para cima de sua lama terrena.
Nenhuma virtude faz do homem encarnado semelhante a um espírito angélico como o auto-controle, pois ele capacita aqueles que vivem ainda na terra a tornarem-se, como disse o Apóstolo, 'cidadãos dos céus'. Um sinal de que atingimos essa virtude perfeitamente é que nossa alma ignora aquelas imagens que produzem fantasias profanas durante o sono; pois ainda que a produção de tais imagens não seja pecado, é, no entanto, sinal de que a alma está doente e que ela não foi libertada das paixões. Logo, nós devemos considerar as fantasias profanas que nascem em nós durante o sono como prova de indolência e fraqueza existindo em nós, uma vez que a imagem que aparece em nós quando estamos relaxados no sono revela a doença que jaz oculta em nossas almas. Por causa disso, o Doutor de nossas almas também colocou o remédio nas regiões ocultas da alma, reconhecendo que a causa de nossa doença repousa lá. Por isso ele diz: "Quem olha para uma mulher com luxúria já cometeu adultério em seu coração" (Matt, 5: 28). Ele procura corrigir não tanto nossos olhos incastos como a alma que faz mal uso dos olhos dados por Deus para bons propósitos. E é por isso que o livro dos Provérbios, na sua sabedoria não diz: "Guarde seus olhos com toda a diligência" mas sim "Guarde seu coração com toda a diligência" (Prov. 4:23), impondo o remédio da diligência em primeiro lugar sobre aquele que faz uso dos olhos de acordo com os propósitos que deseja.
A maneira de manter guarda sobre nosso coração é expelir imediatamente da mente toda lembrança das mulheres, recordação esta inspirada pelos demônios - mesmo da mãe, da irmã ou de uma mulher devota - para que dando habitação por muito tempo a estes pensamentos na mente, ela seja lançada pelo enganador em pensamentos degradantes e perniciosos. O mandamento dado por Deus ao primeiro homem, Adão, dizia-lhe para manter vigilância sobre a influência da serpente (cf. Gen. 3:15, LXX) ou seja, sobre as primeiras noções acerca dos pensamentos perniciosos por meio dos quais a serpente tenta influenciar nossa alma. Se nós não admitimos a influência da serpente, que é a provocação do pensamento, nós não admitiremos o resto que é o assentimento aos prazeres sensuais que o pensamento sugere e assim rebaixa a mente para atos ilícitos.
Como está escrito, nós devemos 'pela manhã destruir todos os ímpios da terra' (Salmos 101:8), distinguindo à luz do conhecimento divino nossos pensamentos pecaminosos e então erradicando-os completamente da terra - nossos corações - de acordo com os ensinamentos do Senhor. Enquanto as crianças da Babilônia - pelas quais quero dizer nosso pensamentos perversos - são ainda jovens, nós podemos atirá-las ao chão e lançá-las contra a pedra que é o Cristo (Salmo 137: 9/ 1 Cor. 10:4). Se estes pensamentos crescem mais fortes por lhes darmos assentimento, nós não seremos capazes de superá-los sem muita dor e trabalho.
É bom lembrar os ditos dos Padres bem como as passagens das Sagradas Escrituras citadas acima. Por exemplo, São Basílio, Bispo de Cesaréia na Capadócia, disse: "Eu não conhecia mulher e não era ainda virgem". Ele reconheceu que o dom da virgindade é alcançado não tanto por abstenção de relação com mulher e sim pela santidade e pureza de alma que por sua vez é obtida pelo temor de Deus. Os Padres também dizem que nós não podemos adquirir totalmente a real humildade do coração. E não nos será concedido o verdadeiro conhecimento espiritual enquanto a paixão da luxúria permanecer oculta nas profundezas de nossa alma.
Para finalizar esta seção de nosso trabalho, lembraremos um dos ditos do Apóstolo que ilustra seu ensinamento para adquirir autocontrole. Ele diz: "Segui a paz com todos e a santificação sem a qual ninguém verá o senhor" (Hebreus 12:14). É claro que ele está falando aqui também acerca do autocontrole: "E ninguém seja devasso e profano como Esaú que vendeu seu direito de primogenitura por um prato de lentilhas" (Hebreus 12: 16). No grau mais elevado de santidade a que podemos chegar, o mais pesado são os ataques dos inimigos a que nossa alma pode estar submetida. Logo devemos alcançar não apenas controle corporal, mas também contrição do coração com frequentes orações de arrependimento, para que com o orvalho do Espírito Santo, possamos apagar o fogo de nossa carne, acendido diariamente pelo rei da Babilônia, o fole do desejo. (Dan, 3:19). Além disso, uma grande arma nos foi dada em forma das sagradas vigílias; pois assim como a observação que mantemos sobre nossos pensamentos durante o dia traz santidade à noite, assim também a vigília à noite traz pureza à alma durante o dia".
"Orai sem cessar" (1Ts 5: 17)
Páginas 75 a 77
tradução da versão em inglês por Rochelle Cysne
Sobre o demônio da luxúria (falta de castidade) e o desejo da carne
Nossa segunda luta é contra o demônio da luxúria e o desejo da carne, um desejo que começa por perturbar o homem desde o início de sua juventude. Esta dura luta tem de ser enfrentada tanto na alma quanto no corpo, e não apenas na alma, como é o caso de outras falhas. Consequentemente temos de lutar em duas frentes.
Jejum corporal não é suficiente para ocasionar o autocontrole e a verdadeira pureza; ele deve ser acompanhado pela contrição do coração, oração intensa a Deus, meditação frequente nas Escrituras e trabalho manual. Estas ferramentas são capazes de checar as inquietudes da alma e recordá-la de suas fantasias vergonhosas. Humildade de alma ajuda mais do que tudo e sem ela ninguém pode superar a luxúria ou qualquer outro pecado. Em primeiro lugar, então, nós devemos tomar o maior cuidado em guardar nosso coração de certos pensamentos, pois, de acordo com o Senhor, 'do coração procedem os maus pensamentos, assassinatos, adultérios, luxúria", etc. (Mat. 15:19)
Nós falamos da necessidade de jejuar não apenas para mortificar nosso corpo, mas também para manter nosso intelecto atento de modo que não seja obnubilado pelo excesso de comida que ingerimos e, assim, seja incapaz de fazer a guarda dos pensamentos. Logo não devemos gastar todo nosso esforço em jejuns corporais; nós devemos também prestar atenção em nossos pensamentos e em nossa meditação espiritual, já que de outro modo não seremos capazes de avançar às alturas da verdadeira pureza e castidade. Como Nosso Senhor disse, nós devemos "primeiro limpar o interior do prato e do copo, para que seu exterior seja também limpo". (Mat. 23:26)
Se estamos realmente ansiosos, como o Apóstolo aponta, para 'lutar' e para ser 'aperfeiçoados' (2 Tim 2:5) de modo a superar o espírito de luxúria, nós não devemos confiar em nossa própria força e prática ascética, mas na ajuda de nosso Mestre, nosso Deus. Ninguém deixa de ser atacado por este demônio a menos que verdadeiramente creia que será curado e que atingirá o cume da pureza não por meio de seus próprios esforços e trabalhos, mas mediante a ajuda e proteção de Deus. Pois tal vitória está além dos poderes naturais humanos. De fato, aquele que pisou nos prazeres e provocações da carne está de certo modo alheio ao próprio corpo. Destarte, ninguém pode ganhar a este alto e celestial prêmio com suas próprias asas e aprender a imitar os anjos, a menos que a graça de Deus o conduza para cima de sua lama terrena.
Nenhuma virtude faz do homem encarnado semelhante a um espírito angélico como o auto-controle, pois ele capacita aqueles que vivem ainda na terra a tornarem-se, como disse o Apóstolo, 'cidadãos dos céus'. Um sinal de que atingimos essa virtude perfeitamente é que nossa alma ignora aquelas imagens que produzem fantasias profanas durante o sono; pois ainda que a produção de tais imagens não seja pecado, é, no entanto, sinal de que a alma está doente e que ela não foi libertada das paixões. Logo, nós devemos considerar as fantasias profanas que nascem em nós durante o sono como prova de indolência e fraqueza existindo em nós, uma vez que a imagem que aparece em nós quando estamos relaxados no sono revela a doença que jaz oculta em nossas almas. Por causa disso, o Doutor de nossas almas também colocou o remédio nas regiões ocultas da alma, reconhecendo que a causa de nossa doença repousa lá. Por isso ele diz: "Quem olha para uma mulher com luxúria já cometeu adultério em seu coração" (Matt, 5: 28). Ele procura corrigir não tanto nossos olhos incastos como a alma que faz mal uso dos olhos dados por Deus para bons propósitos. E é por isso que o livro dos Provérbios, na sua sabedoria não diz: "Guarde seus olhos com toda a diligência" mas sim "Guarde seu coração com toda a diligência" (Prov. 4:23), impondo o remédio da diligência em primeiro lugar sobre aquele que faz uso dos olhos de acordo com os propósitos que deseja.
A maneira de manter guarda sobre nosso coração é expelir imediatamente da mente toda lembrança das mulheres, recordação esta inspirada pelos demônios - mesmo da mãe, da irmã ou de uma mulher devota - para que dando habitação por muito tempo a estes pensamentos na mente, ela seja lançada pelo enganador em pensamentos degradantes e perniciosos. O mandamento dado por Deus ao primeiro homem, Adão, dizia-lhe para manter vigilância sobre a influência da serpente (cf. Gen. 3:15, LXX) ou seja, sobre as primeiras noções acerca dos pensamentos perniciosos por meio dos quais a serpente tenta influenciar nossa alma. Se nós não admitimos a influência da serpente, que é a provocação do pensamento, nós não admitiremos o resto que é o assentimento aos prazeres sensuais que o pensamento sugere e assim rebaixa a mente para atos ilícitos.
Como está escrito, nós devemos 'pela manhã destruir todos os ímpios da terra' (Salmos 101:8), distinguindo à luz do conhecimento divino nossos pensamentos pecaminosos e então erradicando-os completamente da terra - nossos corações - de acordo com os ensinamentos do Senhor. Enquanto as crianças da Babilônia - pelas quais quero dizer nosso pensamentos perversos - são ainda jovens, nós podemos atirá-las ao chão e lançá-las contra a pedra que é o Cristo (Salmo 137: 9/ 1 Cor. 10:4). Se estes pensamentos crescem mais fortes por lhes darmos assentimento, nós não seremos capazes de superá-los sem muita dor e trabalho.
É bom lembrar os ditos dos Padres bem como as passagens das Sagradas Escrituras citadas acima. Por exemplo, São Basílio, Bispo de Cesaréia na Capadócia, disse: "Eu não conhecia mulher e não era ainda virgem". Ele reconheceu que o dom da virgindade é alcançado não tanto por abstenção de relação com mulher e sim pela santidade e pureza de alma que por sua vez é obtida pelo temor de Deus. Os Padres também dizem que nós não podemos adquirir totalmente a real humildade do coração. E não nos será concedido o verdadeiro conhecimento espiritual enquanto a paixão da luxúria permanecer oculta nas profundezas de nossa alma.
Para finalizar esta seção de nosso trabalho, lembraremos um dos ditos do Apóstolo que ilustra seu ensinamento para adquirir autocontrole. Ele diz: "Segui a paz com todos e a santificação sem a qual ninguém verá o senhor" (Hebreus 12:14). É claro que ele está falando aqui também acerca do autocontrole: "E ninguém seja devasso e profano como Esaú que vendeu seu direito de primogenitura por um prato de lentilhas" (Hebreus 12: 16). No grau mais elevado de santidade a que podemos chegar, o mais pesado são os ataques dos inimigos a que nossa alma pode estar submetida. Logo devemos alcançar não apenas controle corporal, mas também contrição do coração com frequentes orações de arrependimento, para que com o orvalho do Espírito Santo, possamos apagar o fogo de nossa carne, acendido diariamente pelo rei da Babilônia, o fole do desejo. (Dan, 3:19). Além disso, uma grande arma nos foi dada em forma das sagradas vigílias; pois assim como a observação que mantemos sobre nossos pensamentos durante o dia traz santidade à noite, assim também a vigília à noite traz pureza à alma durante o dia".
"Orai sem cessar" (1Ts 5: 17)
Sobre os oito vícios
Sobre os oito vícios: sobre o controle do estômago
São João Cassiano
(The Philokalia, The Complete Text, Volume One, Faber and Faber, New York, 1979, pags. 73 e 74)
Traduzido da verão inglesa de G. E. H Palmer, Philip Sherrard e Kallisto Ware, por Rochelle Cysne.
"Sobre os oito vícios: escrito para o Bispo Kastor"
Tendo composto o tratado sobre as instituições cenobíticas, eu estou neste momento mais uma vez encorajado por vossas orações a tentar escrever alguma coisa sobre os oito vícios: glutonaria, luxúria, avareza, ira, inveja, apatia (preguiça), auto-estima e orgulho.
"Sobre o controle do estômago"
Eu falarei primeiro sobre o controle do estômago, o oposto à glutonaria, e sobre como jejuar e o quê e como comer. Eu não direi nada de minha própria conta, e sim apenas o que eu recebi dos Santos Padres. Eles não nos deram apenas uma regra singular do jejum, ou uma medida e padrão para a comida, já que nem todos possuem a mesma compleição; idade, doença ou fraqueza do corpo criam disparidades. Mas eles nos deram uma simples meta: evitar comer demais e encher nossas barrigas. Eles também descobriram que jejuar por um dia é mais benéfico e de maior ajuda para se alcançar a pureza do que estender o jejum por um período de três, quatro ou mesmo sete dias. Aquele que jejua por muito tempo, eles afirmam, acaba por comer depois demais. O resultado é que muitas vezes o corpo se torna enervado pela falta indevida de comida e lento ao longo de seus exercícios espirituais, enquanto que outras vezes, oprimido pelo excesso de comida ingerida, deixa a alma preguiçosa e negligente.
Eles também descobriram que se alimentar apenas de verduras não é para todos e que nem todo mundo pode viver à base de pão seco. Eles dizem que há aqueles que podem comer duas medidas de pão seco e ainda permanecerem famintos e que há aqueles que podem comer um quarto disso e se satisfazerem. Como eu disse, os Padres proferiram uma regra básica de auto controle: "não sejam enganados pelo desejo de uma barriga cheia" (Provérbios 24: 15. LXX) ou sejam desviados pelo prazer do paladar. Não é a variedade de alimentos que acendem os dardos inflamados da luxúria, mas apenas a sua quantidade. Qualquer tipo de alimento em demasia no ventre engendra a semente do desregramento. Não é apenas muito vinho que embota a nossa mente: também muita água ou muito de qualquer coisa torna-a sonolenta e estupidificada. Os sodomitas foram destruídos não por causa do muito vinho ou tanto por outras comidas, mas por causa do excesso de pão, como os Profetas nos contam (cf. Ezequiel 16:49).
Doença física não é um obstáculo para a pureza do coração, se garantimos dar ao corpo o que a doença requer e não o que agrada nosso desejo de prazer. O comer é para garantir a nossa vida e não para nos escravizar aos impulsos do desejo. Comer moderadamente e racionalmente tem como meta manter a saúde do corpo e não para nos privar da santidade.
Uma regra básica de auto-controle proferida pelos Padres é esta: pare de comer enquanto ainda está faminto e não continue até se satisfazer. Quando o Apóstolo fala: "Não faça provisão para satisfazer os desejos da carne" (Rom, 13: 14) ele não está nos proibindo de garantir o que é necessário à vida; ele está nos advertindo contra a auto-indulgência. Ademais, abster-se de comida não contribui para a perfeita pureza a menos que outras virtudes sejam atualizadas também. Humildade, por exemplo, praticada através da obediência e através do esforço corporal é de grande ajuda. Se nós rejeitamos a avareza por termos pouco ou nenhum dinheiro, mas também pelo desejo de não ter dinheiro nenhum, isso nos conduz em direção à pureza de alma. Ser livre da raiva, da inveja, da auto-estima e do orgulho contribuem para a pureza da alma em geral, enquanto que auto-controle e jejum são especialmente importantes para gerar a específica pureza de alma que vem por meio do auto controle e da moderação. Ninguém que esteja com o estômago cheio pode lutar contra o demônio da luxúria. Assim, nossa luta inicial deve ser ganhar controle sobre nosso estômago e sujeitar nosso corpo não apenas ao jejum mas também à vigília, aos trabalhos manuais e à leitura espiritual, e por meio disso tudo concentrar nosso coração no temor da Geena e na saudade do Reino dos Céus.
Ícone de São João Cassiano de Roma.
São João Cassiano
(The Philokalia, The Complete Text, Volume One, Faber and Faber, New York, 1979, pags. 73 e 74)
Traduzido da verão inglesa de G. E. H Palmer, Philip Sherrard e Kallisto Ware, por Rochelle Cysne.
"Sobre os oito vícios: escrito para o Bispo Kastor"
Tendo composto o tratado sobre as instituições cenobíticas, eu estou neste momento mais uma vez encorajado por vossas orações a tentar escrever alguma coisa sobre os oito vícios: glutonaria, luxúria, avareza, ira, inveja, apatia (preguiça), auto-estima e orgulho.
"Sobre o controle do estômago"
Eu falarei primeiro sobre o controle do estômago, o oposto à glutonaria, e sobre como jejuar e o quê e como comer. Eu não direi nada de minha própria conta, e sim apenas o que eu recebi dos Santos Padres. Eles não nos deram apenas uma regra singular do jejum, ou uma medida e padrão para a comida, já que nem todos possuem a mesma compleição; idade, doença ou fraqueza do corpo criam disparidades. Mas eles nos deram uma simples meta: evitar comer demais e encher nossas barrigas. Eles também descobriram que jejuar por um dia é mais benéfico e de maior ajuda para se alcançar a pureza do que estender o jejum por um período de três, quatro ou mesmo sete dias. Aquele que jejua por muito tempo, eles afirmam, acaba por comer depois demais. O resultado é que muitas vezes o corpo se torna enervado pela falta indevida de comida e lento ao longo de seus exercícios espirituais, enquanto que outras vezes, oprimido pelo excesso de comida ingerida, deixa a alma preguiçosa e negligente.
Eles também descobriram que se alimentar apenas de verduras não é para todos e que nem todo mundo pode viver à base de pão seco. Eles dizem que há aqueles que podem comer duas medidas de pão seco e ainda permanecerem famintos e que há aqueles que podem comer um quarto disso e se satisfazerem. Como eu disse, os Padres proferiram uma regra básica de auto controle: "não sejam enganados pelo desejo de uma barriga cheia" (Provérbios 24: 15. LXX) ou sejam desviados pelo prazer do paladar. Não é a variedade de alimentos que acendem os dardos inflamados da luxúria, mas apenas a sua quantidade. Qualquer tipo de alimento em demasia no ventre engendra a semente do desregramento. Não é apenas muito vinho que embota a nossa mente: também muita água ou muito de qualquer coisa torna-a sonolenta e estupidificada. Os sodomitas foram destruídos não por causa do muito vinho ou tanto por outras comidas, mas por causa do excesso de pão, como os Profetas nos contam (cf. Ezequiel 16:49).
Doença física não é um obstáculo para a pureza do coração, se garantimos dar ao corpo o que a doença requer e não o que agrada nosso desejo de prazer. O comer é para garantir a nossa vida e não para nos escravizar aos impulsos do desejo. Comer moderadamente e racionalmente tem como meta manter a saúde do corpo e não para nos privar da santidade.
Uma regra básica de auto-controle proferida pelos Padres é esta: pare de comer enquanto ainda está faminto e não continue até se satisfazer. Quando o Apóstolo fala: "Não faça provisão para satisfazer os desejos da carne" (Rom, 13: 14) ele não está nos proibindo de garantir o que é necessário à vida; ele está nos advertindo contra a auto-indulgência. Ademais, abster-se de comida não contribui para a perfeita pureza a menos que outras virtudes sejam atualizadas também. Humildade, por exemplo, praticada através da obediência e através do esforço corporal é de grande ajuda. Se nós rejeitamos a avareza por termos pouco ou nenhum dinheiro, mas também pelo desejo de não ter dinheiro nenhum, isso nos conduz em direção à pureza de alma. Ser livre da raiva, da inveja, da auto-estima e do orgulho contribuem para a pureza da alma em geral, enquanto que auto-controle e jejum são especialmente importantes para gerar a específica pureza de alma que vem por meio do auto controle e da moderação. Ninguém que esteja com o estômago cheio pode lutar contra o demônio da luxúria. Assim, nossa luta inicial deve ser ganhar controle sobre nosso estômago e sujeitar nosso corpo não apenas ao jejum mas também à vigília, aos trabalhos manuais e à leitura espiritual, e por meio disso tudo concentrar nosso coração no temor da Geena e na saudade do Reino dos Céus.
Ícone de São João Cassiano de Roma.
quarta-feira, 26 de setembro de 2012
A nova Eva
A nova Eva
(John Meyendorff, Op. Cit, pags 274 a 279, trad. Rochelle Cysne)
Já na época de Justino e Irineu, a primitiva tradição cristã estabeleceu um paralelismo entre Gn 2 e o relato da Anunciação no evangelho segundo Lucas, tanto enquanto contraste entre duas virgens, Eva e Maria, para simbolizar os dois modos que tem o homem de usar sua liberdade de criatura: o primeiro, como redenção ao demônio que oferece uma falsa deificação; e o segundo como aceitação humilde da vontade de Deus.
Embora depois do Concílio de Éfeso, o conceito de uma nova Eva, que em nome da humanidade caída foi capaz de aceitar a chegada de uma nova "libertação", foi substituído pela veneração de Maria como Mãe de Deus (Theotokos), essa ideia está presente na tradição patrística ao largo de todo o período bizantino. Por exemplo, Proclo, patriarca de Constantinopla (436-446), utiliza frequentemente esse conceito em suas homilias, nas quais apresenta a Virgem Maria como meta da História do Antigo Testamento, que começa precisamente com os filhos de Eva. Por sua parte Palamas escreve: "Entre os filhos de Adão, Deus escolheu o admirável Set; deste modo, a escolha da que iria ser a sua Mãe teve origem entre os próprios filhos de Adão. Esta escolha foi se efetivando nas sucessivas gerações e chegou até o rei e profeta Davi (...) Quando chegou a hora em que esta eleição se fez realidade, Joaquim e Ana, da casa e família de Davi foram escolhidos por Deus (...), que lhes prometeu e lhes concedeu uma filha que haveria de ser a Mãe de Deus". (Gregório Palamas, Homi. in Praesent. 6-7).
Portanto, a eleição da Virgem Maria é o ponto culminante da marcha de Israel para a sua reconciliação com a divindade. Mas a resposta definitiva de Deus a esse processo e o começo de uma nova vida chegou com a encarnação da Palavra. Na mesma homilia escreve Palamas: "A salvação exigia uma nova raiz porque, exceto Deus, nada havia sem pecado, ninguém podia dar a vida, ninguém podia perdoar os pecados". Essa "nova raiz" é a Palavra de Deus feita Carne e a Virgem é o seu "templo".
Na homilética e na hinografia bizantina é frequente louvar a Virgem como "totalmente preparada", "purificada" e "santificada" por Deus. Mas estas expressões deveriam interpretar-se no contexto da doutrina dominante no Oriente sobre o pecado original, que sustenta que a herança de Adão é a mortalidade, não uma culpabilidade; de fato, nenhum teólogo bizantino teve qualquer dúvida de que Maria foi realmente um ser mortal.
O interesse dos teólogos ocidentais em encontrar em Bizâncio antigos testemunhos sobre a doutrina da Imaculada Conceição de Maria os conduziu a interpretar essas passagens fora de seu contexto. Sofrônio de Jerusalém (638) louvava assim a Maria: "Antes que tu aparecesses em nosso mundo, houve muitos santos, mas nenhum deles esteve tão cheio de graça como tu (...) e nenhum foi previamente purificado como o foste tu...". E Andrés de Creta (740) é ainda mais explícito em um sermão para a festa da Natividade da Virgem: "Quando nasce a mãe do que é a glória por excelência, a natureza [humana] recobra em sua pessoa os antigos privilégios e se configura segundo um modelo perfeito, verdadeiramente digno de Deus (...) Em uma palavra, a transfiguração de nossa natureza começa realmente hoje...". Esse tema, que aparece nos hinos litúrgicos para a festa de 8 de setembro, recebe novo desenvolvimento em uma homilia de Nicolás Cabasilas, no século XIV: "Ela é terra, porque procede da terra; mas é terra nova, porque não procede de modo algum de seus antepassados e não herdou a antiga levedura. Ela é (...) uma massa nova e deu origem a uma nova raça".
As citações facilmente poderiam se multiplicar e, de fato, constituem uma indicação bem clara de que a devoção mariológica dos bizantinos poderia levá-los a aceitar o Dogma da Imaculada Conceição de Maria, tal como se definiu em 1854, se tivessem compartilhado a doutrina ocidental do pecado original. Mas há que se recordar - sobretudo nos exageros poéticos, emocionais e retóricos da mariologia litúrgica bizantina - que certos conceitos, como "pureza" e "santidade", se podem perceber facilmente inclusive no seio da humanidade pré cristã, que se considerava como mortal, embora não necessariamente como "culpável". No caso de Maria, sua resposta ao anjo e sua condição de Nova Eva a situavam em uma relação especial com a "nova raça" que havia nascido dela. No entanto, em nenhum autor bizantino se encontra uma única afirmação que implique que Maria recebeu uma graça especial da imortalidade. Apenas uma afirmação como essa poderia implicar claramente que sua humanidade não compartilhava o destino comum dos descendentes de Adão. (...)
Para manter uma interpretação equilibrada da mariologia bizantina temos que recordar o marco essencialmente cristológico na qual se inscreve a veneração da Theotokos em Bizâncio. (...)
A Igreja Bizantina, ao tratar sabiamente de preservar a escala de valores teológicos que sempre davam precedência às verdades básicas do Evangelho, se absteve de forçar qualquer formulação dogmática sobre Maria, com exceção do fato de que era real e verdadeiramente Theotokos, a Mãe de Deus. Não cabe dúvida de que este título tão chamativo, enquanto necessário segundo a lógica da cristologia cirílica, podia justificar a aclamação litúrgica diária que a exaltava como "mais nobre que os querubins e mais gloriosa que os serafins".
Se poderia atribuir a um ser humano maior honra? Se poderia encontrar uma base mais evidente para uma antropologia cristã do caráter teocêntrico?
Bibliografia:
Lossky, V. On the Image and Likeness, St. Vladimir's Seminary Press, New York, 1974.
Tunberg, Lars. Microocsm and Mediator: The Theological Anthropology of Maximus the Confessor. Gleerup, Lund, 1965.
(John Meyendorff, Op. Cit, pags 274 a 279, trad. Rochelle Cysne)
Já na época de Justino e Irineu, a primitiva tradição cristã estabeleceu um paralelismo entre Gn 2 e o relato da Anunciação no evangelho segundo Lucas, tanto enquanto contraste entre duas virgens, Eva e Maria, para simbolizar os dois modos que tem o homem de usar sua liberdade de criatura: o primeiro, como redenção ao demônio que oferece uma falsa deificação; e o segundo como aceitação humilde da vontade de Deus.
Embora depois do Concílio de Éfeso, o conceito de uma nova Eva, que em nome da humanidade caída foi capaz de aceitar a chegada de uma nova "libertação", foi substituído pela veneração de Maria como Mãe de Deus (Theotokos), essa ideia está presente na tradição patrística ao largo de todo o período bizantino. Por exemplo, Proclo, patriarca de Constantinopla (436-446), utiliza frequentemente esse conceito em suas homilias, nas quais apresenta a Virgem Maria como meta da História do Antigo Testamento, que começa precisamente com os filhos de Eva. Por sua parte Palamas escreve: "Entre os filhos de Adão, Deus escolheu o admirável Set; deste modo, a escolha da que iria ser a sua Mãe teve origem entre os próprios filhos de Adão. Esta escolha foi se efetivando nas sucessivas gerações e chegou até o rei e profeta Davi (...) Quando chegou a hora em que esta eleição se fez realidade, Joaquim e Ana, da casa e família de Davi foram escolhidos por Deus (...), que lhes prometeu e lhes concedeu uma filha que haveria de ser a Mãe de Deus". (Gregório Palamas, Homi. in Praesent. 6-7).
Portanto, a eleição da Virgem Maria é o ponto culminante da marcha de Israel para a sua reconciliação com a divindade. Mas a resposta definitiva de Deus a esse processo e o começo de uma nova vida chegou com a encarnação da Palavra. Na mesma homilia escreve Palamas: "A salvação exigia uma nova raiz porque, exceto Deus, nada havia sem pecado, ninguém podia dar a vida, ninguém podia perdoar os pecados". Essa "nova raiz" é a Palavra de Deus feita Carne e a Virgem é o seu "templo".
Na homilética e na hinografia bizantina é frequente louvar a Virgem como "totalmente preparada", "purificada" e "santificada" por Deus. Mas estas expressões deveriam interpretar-se no contexto da doutrina dominante no Oriente sobre o pecado original, que sustenta que a herança de Adão é a mortalidade, não uma culpabilidade; de fato, nenhum teólogo bizantino teve qualquer dúvida de que Maria foi realmente um ser mortal.
O interesse dos teólogos ocidentais em encontrar em Bizâncio antigos testemunhos sobre a doutrina da Imaculada Conceição de Maria os conduziu a interpretar essas passagens fora de seu contexto. Sofrônio de Jerusalém (638) louvava assim a Maria: "Antes que tu aparecesses em nosso mundo, houve muitos santos, mas nenhum deles esteve tão cheio de graça como tu (...) e nenhum foi previamente purificado como o foste tu...". E Andrés de Creta (740) é ainda mais explícito em um sermão para a festa da Natividade da Virgem: "Quando nasce a mãe do que é a glória por excelência, a natureza [humana] recobra em sua pessoa os antigos privilégios e se configura segundo um modelo perfeito, verdadeiramente digno de Deus (...) Em uma palavra, a transfiguração de nossa natureza começa realmente hoje...". Esse tema, que aparece nos hinos litúrgicos para a festa de 8 de setembro, recebe novo desenvolvimento em uma homilia de Nicolás Cabasilas, no século XIV: "Ela é terra, porque procede da terra; mas é terra nova, porque não procede de modo algum de seus antepassados e não herdou a antiga levedura. Ela é (...) uma massa nova e deu origem a uma nova raça".
As citações facilmente poderiam se multiplicar e, de fato, constituem uma indicação bem clara de que a devoção mariológica dos bizantinos poderia levá-los a aceitar o Dogma da Imaculada Conceição de Maria, tal como se definiu em 1854, se tivessem compartilhado a doutrina ocidental do pecado original. Mas há que se recordar - sobretudo nos exageros poéticos, emocionais e retóricos da mariologia litúrgica bizantina - que certos conceitos, como "pureza" e "santidade", se podem perceber facilmente inclusive no seio da humanidade pré cristã, que se considerava como mortal, embora não necessariamente como "culpável". No caso de Maria, sua resposta ao anjo e sua condição de Nova Eva a situavam em uma relação especial com a "nova raça" que havia nascido dela. No entanto, em nenhum autor bizantino se encontra uma única afirmação que implique que Maria recebeu uma graça especial da imortalidade. Apenas uma afirmação como essa poderia implicar claramente que sua humanidade não compartilhava o destino comum dos descendentes de Adão. (...)
Para manter uma interpretação equilibrada da mariologia bizantina temos que recordar o marco essencialmente cristológico na qual se inscreve a veneração da Theotokos em Bizâncio. (...)
A Igreja Bizantina, ao tratar sabiamente de preservar a escala de valores teológicos que sempre davam precedência às verdades básicas do Evangelho, se absteve de forçar qualquer formulação dogmática sobre Maria, com exceção do fato de que era real e verdadeiramente Theotokos, a Mãe de Deus. Não cabe dúvida de que este título tão chamativo, enquanto necessário segundo a lógica da cristologia cirílica, podia justificar a aclamação litúrgica diária que a exaltava como "mais nobre que os querubins e mais gloriosa que os serafins".
Se poderia atribuir a um ser humano maior honra? Se poderia encontrar uma base mais evidente para uma antropologia cristã do caráter teocêntrico?
Bibliografia:
Lossky, V. On the Image and Likeness, St. Vladimir's Seminary Press, New York, 1974.
Tunberg, Lars. Microocsm and Mediator: The Theological Anthropology of Maximus the Confessor. Gleerup, Lund, 1965.
την τιμιωτέραν των χερουβείμ
Mais honrável que os querubins.
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