Cristo Pantocrator

quarta-feira, 10 de julho de 2013

O sétimo estágio da contemplação

Continuação do post anterior

O sétimo estágio da contemplação

Aquele que recebe a graça de atingir o sétimo estágio da contemplação maravilha-se com uma multidão de poderes incorpóreos: autoridades, tronos, domínios, serafins e querubins, as nove ordens mencionadas em todas as divinas Escrituras, cuja natureza, poder e outras boas qualidades, tanto quanto sua disposição hierárquica, são conhecidas de Deus, seu Criador. Mas os anfitriões celestes têm também outros postos, acerca dos quais São João Crisóstomo fala. Ele diz que as palavras 'Senhor de Sabaoth' significa 'Senhor dos poderes celestes', e que estes poderes transmitem iluminação a quaisquer outros. Os anjos, ele diz, iluminam o homem enquanto eles, por sua vez, é iluminado pelos arcanjos; estes são iluminados pelas principalidades. Assim, cada ordem recebe iluminação e conhecimento uma da outra. Ele tamabém nos conta que a humanidade constitui como se fosse uma única ovelha, perdida não por Deus mas por sua própria escolha, e que as noventa e nove outras ovelhas são as ordens dos anjos. (cf. Mateus 18: 12-14). (Gregório de Nyssa, Contra Eunomios 10).

Ao considerar a sabedoria e poder do Criador e omo Ele produziu tais estados múltiplos de ser simplesmente por convidá-los à existência, São Gregório, o Teólogo diz que Deus concebeu primeiro os poderes angélicos e então os estados que o seguem. Como diz Santo Isaac, quando se passa espiritualmente além do limiar _ o que significa, além do véu do templo_ o homem se torna imaterial. A parte exterior do templo representa este mundo; o véu ou limiar representa o firmamento dos céus; o santo dos santos representa o reino supracósmico onde os poderes incorpóreos e imateriais entoam sem cessar hinos a Deus e intercedem por nós, como diz Santo Atanásio, o Grande. No reino o pensamento de cada pessoa é de paz e torna-se filho de Deus pela Graça, iniciado nos mistérios ocultos nas Sagradas Escrituras, como coloca São João Damasceno: "O véu divino do templo foi arrendado pela Cruz do Criador, revelando ao temente a Deus a verdade escondida sob o sentido literal da Escritura; e eles choram: Deus de nossos pais, Bendito és Tu." (Paraklitiks, Tono 3). Como São Kosmas, o Hinógrafo diz, "Quando o primeiro homem experimentou a árvore, ele envolveu-se com a corrupção: foi expulso ignobilmente da vida e com um corpo sujeito à corrupção, ele passou este castigo para toda a humanidade. Mas nós, nascidos da terra, restaurados pelo madeiro da Cruz, choram auto: Bendito és Tu e exaltado acima de tudo para sempre". (Festa de Exaltação da Cruz, 14 de setembro).

quinta-feira, 4 de julho de 2013

O sexto estágio da contemplação

Sexto estágio da contemplação
 (continuação do post anterior)

Quando uma pessoa adquiriu o hábito do desapego, então lhe é garantido acesso ao sexto estágio da contemplação, que é conhecido como "força" (cf. Isaias 11:2). Neste estágio começa-se a olhar sem paixão para a beleza das coisas criadas.

Há três categorias de pensamento: o humano, o demoníaco e o angélico. O pensamento humano consiste em concepções abstratas, provenientes da consideração de alguma coisa criada, como homem, ouro, ou algum outro objeto sensível. O pensamento demoníaco consiste em uma imagem conceitual combinada às paixões. Considere-se, por exemplo, o pensamento acerca de um ser humano, mas de um pensamento acompanhado por afecções estúpidas, isto é, pelo desejo de um relacionamento não abençoado por Deus mas envolvendo falta de castidade; ou ainda, acompanhado por um ódio não razoável,  como rancor ou despeito. Novamente, considera-se o ouro de maneira avara ou com a intenção ou de roubo ou de confisco; ou ainda, é despertado ódio e blasfêmia contra as obras de Deus, ocasionando, deste modo, sua própria perdição. Pois se não amamos as coisas como deveriam ser amadas, mas as amamos mais do que amamos a Deus, então não passamos de idólatras, como diz São Máximo. Mas se, por outro lado, odiamos e desdenhamos coisas, falhamos em perceber que elas foram criadas 'totalmente boas e belas' (Gênesis 1:31), e assim provocamos a ira de Deus.

O pensamento angélico, finalmente, consiste na contemplação desapaixonada das coisas, que é o próprio conhecimento espiritual. Ele é o ponto médio entre precipícios, protegendo o intelecto e capacitando-o a distinguir entre sua verdadeira meta e as seis armadilhas diabólicas que as ameaçam. Estas armadilhas situam-se acima e abaixo, à direita e à esquerda, perto e distante da verdadeira meta do intelecto. O conhecimento espiritual autêntico firma-se no centro, cercado destas armadilhas. É o conhecimento ensinado por aqueles anjos terrenos que se fizeram mortos para o mundo, de modo que seus intelectos se desenvolveram sem apegos, vendo as coisas como devem ser vistas. Neste sentido, o intelecto não excede seu verdadeiro objetivo de orgulho e autoestima, compreendendo as coisas meramente a partir de seu próprio poder de pensamento; nem despenca, pois sua verdadeira meta é evitar a ignorância para se atingir a perfeição. Não vira à direita, odiando e rejeitando as coisas criadas, nem à esquerda através de afeições estúpidas por elas e unidas a elas. Ele não permanece no lado mais próximo de seu verdadeiro objetivo por causa de sua absoluta ignorância e preguiça, nem o ultrapassa ficando distante deste, atraído pelo espírito de intromissão e a curiosidade sem sentido que surge a partir do desprezo ou da malícia. De preferência, ele aceita o conhecimento espiritual com paciência, humildade e esperança que nascem de uma fé profunda. Neste sentido, através de seu conhecimento parcial das coisas o intelecto é levado para cima em direção ao amor divino. Mas, ainda que ele possua algum conhecimento, ele é consciente de que ainda é ignorante; e esta consciência o mantém em estado de humildade. Assim, através de uma esperança persistente e da fé ele alcança seu objetivo, nem odiando qualquer coisa como sendo absolutamente má, nem amando qualquer coisa além de sua medida.

Nós devemos observar o homem com maravilha, consciente de que seu intelecto, sendo infinito, é a imagem do Deus invisível; e que mesmo que ele seja por um tempo limitado pelo corpo, como diz São Basílio, ele pode abraçar todas as formas, assim como a Providência Divina abarca o universo inteiro. Pois o intelecto tem a habilidade para transformar-se em tudo, e é marcado com a forma do objeto que apreende. Mas quando ele é tomado para dentro de Deus, que é sem forma e sem imagem, ele se torna sem forma e sem imagem em si mesmo. Então, devemos nos maravilhar como o intelecto pode preservar qualquer pensamento ou ideia, e como um pensamento anterior não necessita ser modificado por outros pensamentos posteriores, ou um pensamento posterior ser prejudicado por um anterior. Pelo contrário, a mente armazena incansavelmente todos os pensamentos. Todos estes pensamentos, se novos ou velhos permanecem armazenados e o intelecto quando deseja pode expressar isso em linguagem; ainda que as palavras estejam sempre indo e vindo, a mente nunca se exaure.


Quando levamos em conta o corpo, devemos nos maravilhar do modo como os olhos, ouvidos e língua são usados externamente de acordo com os desejos da alma, os olhos através da luz, e ouvidos e língua por meio do ar; e como nenhum dos sentidos impedem o trabalho dos outros ou pode fazer qualquer coisa que a alma não tenha intenção de executar. Nós devemos nos maravilhar também que o corpo que não tem seu próprio princípio de animação é, no comando de Deus, combinado com a alma noética e deiforme, criado pelo Espírito Santo que soprou-lhe vida (cf. Gênesis 2:7), como diz São João de Damascos. É errado pensar, como fazem alguns, que a alma é uma emanação da cabeça divina, pois isto é impossível. Como diz São João Crisóstomo, "De modo a impedir o pensamento humano de pensar que é Deus, Deus o sujeitou à ignorância e ao esquecimento, para que deste modo ele possa adquirir humildade". Ele também disse que o Criador desejou que houvesse uma separação em sua intermistura natural de alma e corpo. A alma deiforme, como diz São João Clímaco, ou ascende para o céu ou vai para baixo no Hades, enquanto o corpo terreno retorna para a terra da qual foi tirado. Mas por meio da graça de nosso Salvador Jesus Cristo estes dois elementos separados são mais uma vez unidos em sua Segunda Vinda, de modo que cada um possa receber por suas próprias obras. Quem pode compreender esse mistério sem ficar atônito? Deus eleva o homem o homem novamente da terra mesmo após ele ter cometido tantos crimes terríveis, desprezando os divinos mandamentos, e Ele lhe outorga a mesma imortalidade concedida originariamente, ainda que o homem tenha infringido os mandamentos que lhe preservam da morte e da corrupção, e nesta arrogância ele trouxe a morte a si mesmo.

Iluminado espiritualmente através da inspiração angélica, o homem se maravilha com estas e muitas outras coisas concernentes à natureza humana. Novamente, ele contempla a beleza e a utilidade do ouro, e se maravilha com o fato de que tal coisa veio da terra, e de igual modo a fraqueza pode distribuir sua riqueza em atos de caridade, enquanto aqueles que não conseguem exercer tal caridade são ajudados a fazê-lo por várias provações não procuradas e contanto que elas sejam aceitas alegremente, elas conduzem à salvação. Assim, ambos os grupos são salvos. Aqueles, porém, que escolheram entregar todas as suas posses serão coroados com glória, pois - como aqueles que vivem na virgindade - eles cumprem o que transcende a natureza. Na medida em que o ouro é uma coisa perecível e terrena, não é para ser preferida aos mandamentos  de Deus; e como alguma coisa criada por Deus e útil para a vida do corpo e para a salvação, ela merece não nosso ódio, mas nosso amor e autocontrole.

Por contemplar assim desapegadamente a beleza e uso de cada coisa, aquele que é iluminado é preenchido com amor pelo Criador. Ele examina todas as coisas visíveis nos mundos superiores e inferiores: o céu, o sol, a lua, as estrelas e nuvens, os pingos d'água e a chuva, a neve e o granizo, quão grandes fenômenos, trovões, relâmpagos, ventos e brisas e o modo como eles mudam, as estações, os anos, os dias, as noites, as horas, os minutos, a terra, o mar, os rebanhos incontáveis, os animais quadrúpedes, as feras selvagens e os répteis, todos os tipos de pássaros, a primavera e os rios, as muitas variedades de plantas e ervas, tanto as selvagens quanto as cultivadas. Ele vê em todas as coisas a ordem, o equilíbrio, a proporção, a beleza, o ritmo, a união, a harmonia, a utilidade, a concordância, a variedade, a doçura, a estabilidade, o movimento, as cores, as formas, o retorno das coisas à sua fonte, sua permanência em meio à corrupção.

Contemplando assim todas as coisas criadas eles é preenchido de maravilhas. Ele se maravilha de como o Criador pelo simples comando trouxe os quatro elementos do nada; como, em virtude de Sua Sabedoria, os opostos não destroem uns aos outros; e como, fora dos quatro elementos Deus fez tudo para nossa salvação. Ainda como diz São Gregório o Teólogo, tais coisas são insignificantes em comparação com a encarnação de Cristo e com as bençãos que virão. Ele percebe também, como pela bondade e sabedoria de Deus, por Sua força e premeditação, que estão conciliadas nas coisas criadas, são trazidas à luz por potências artísticas do homem. É o modo como o Próprio Deus falou a Jó (cf. Jó 12: 13). De modo similar ele vê como por meio de palavras e letras _ através de fragmentos de tinta inanimada _ Deus revelou tão grandes mistérios a nós nas Sagradas Escrituras; e como, ainda mais maravilhosamente, os santos profetas e apóstolos ganharam tais bençãos através de seu grande labor e amor de Deus, enquanto nós podemos aprender sobre estas questões simplesmente pela leitura. Pois, inspirados pelo Logos, as Escrituras nos falam de coisas ainda mais surpreendentes.


 Quem quer que esteja consciente de tudo isso reconhece que não há nada incidental ou mau na criação, e mesmo o que se coloca contra a vontade de Deus é miraculosamente transformado por Deus em algo bom. Por exemplo, a queda no mal não foi vontade de Deus, ainda que tenha se tornado para a vantagem daqueles que seriam salvos. Pois o mal é permitido para tentar o eleito _ de acordo com a força de cada um, como diz São Isaac _ de modo que possa ser ridicularizado e derrotado por eles. E estas pessoas, que chegaram a ser como os anjos incluem não apenas homens, mas também grande número de mulheres. Por causa de sua tolerância paciente e fé no Divino Juiz, eles recebem, por Sua graça e compaixão, a coroa da imortalidade; pois Deus destruiu e continua a destruir a cobra assassina e indolente.

A pessoa que recebeu a graça do conhecimento espiritual sabe que todas as coisas são 'completamente boas e belas' (Gênesis 1:31); mas aquele que possui apenas os primeiros vislumbres de tais conhecimentos deve reconhecer, com toda a humildade que é ignorante e, como diz São João Crisóstomo, admitir em toda ocasião, 'Eu não sei'. Pois, como diz Crisóstomo, 'se alguém afirma que a altura do céu é tal, e eu digo que não sei, pelo menos eu falei a verdade, ao passo que a outra pessoa é enganada ao pensar que sabe enquanto de fato não sabe, como diz São Paulo (Cf. I Coríntios 8:2). É em consideração a isto que com firme fé e investigação devemos aceitar as doutrinas da Igreja e as decisões de seus mestres, tanto no que concerne às Sagradas Escrituras, quanto ao que interessa ao mundo físico e espiritual. De outro modo, podemos rapidamente despencar já que caminhamos de acordo com nosso próprio entendimento, como coloca São Doroteu. Nós devemos admitir nossa própria ignorância em todas as coisas, de modo que pela busca e  com desconfiança em nossa própria opinião possamos aspirar a aprender e, pela perda apesar do grande conhecimento, possamos realizar nossa própria ignorância através do reconhecimento da infinita sabedoria de Deus.

O intelecto, sendo espiritual, é capaz de toda percepção espiritual quando em si mesmo é purificado por Deus, de acordo com São Gregório, o Teólogo. Devemos almejar tal conhecimento com a maior apreensão, para que ele não fique oculto em nossa alma, já que uma simples má doutrina é capaz de destruí-lo sem que cometamos qualquer pecado, como diz São Basílio, o Grande. Por esta razão não devemos tentar, através da luta ou zelo arrogante, atingir este tipo de conhecimento contemplativo prematuramente; de preferência devemos praticar os mandamentos de Cristo na devida ordem e proceder sem distração através dos vários estágios da contemplação previamente expostos. Uma vez que purificamos a alma através do sofrimento paciente e com lágrimas de medo e tristeza interior, alcançamos o estado de ver a verdadeira natureza das coisas, então _iniciado espiritualmente pelos anjos_ o inteleto espontaneamente atinge este conhecimento contemplativo.

Mas se uma pessoa é presunçosa e tenta alcançar o segundo estágio antes de ter obtido o primeiro, então não apenas ele cairá segundo o propósito de Deus, mas provocará muitas batalhas contra si mesmo, particularmente através da especulação acerca da natureza do homem, como aprendemos no caso de Adão. Aqueles ainda sujeitos às paixões não lucrarão em nada se tentarem agir ou pensar como se já estivessem desapegados: comida sólida não é boa para bebês, ainda que seja excelente para o homem maduro (cf. Hebreus 5:14). Preferencialmente, devem exercitar o discernimento, desejando agir e pensar com desapego, mas se contendo, considerando-se indigno. Ainda quando vem a Graça não a devem rejeitar por desespero ou preguiça; nem devem presunçosamente necessitar algo prematuramente, para que, buscando o que tem seu momento e hora próprios antes do momento certo, como diz São João Crisóstomo, eles deixem de atingi-lo em seu tempo próprio, e caiam no delírio, para além da possibilidade de ajuda dos homens e da Escritura (Escada, etapa 6).

Se o propósito de alguém se fixa em Deus com humildade e ele pacientemente suporta as armadilhas que lhe chegam, Deus resolverá para ele qualquer questão que o confunda ou que talvez lhe conduza à desilusão. Então, grandemente envergonhado mas cheio de alegria, ele volta atrás, procurando o caminho dos pais. Pois, como estabelece São João Clímaco, devemos reconhecer que o que acontece o faz de acordo com a vontade de Deus, e nada mais, como vindo de graça para nosso próprio bem, mesmo que ele em si mesmo não seja muito bom. Sem tal paciência ou humildade uma pessoa sofrerá o que muitos sofreram, perecendo em sua estupidez, confiando em suas próprias opiniões e pensando que eles podem se dar bem mesmo sem um guia da experiência que venha da paciência e da humildade. Pois a experiência transcende a tribulação, as armadilhas e mesmo o estado de guerra. Uma pessoa de experiência deve se sujeitar a um ligeiro ataque da parte dos demônios, e esta armadilha será de grande alegria e proveito para ele; pois é permitido por Deus para que assim ele possa ganhar ainda mais experiência e coragem diante de seus inimigos.

Os sinais disso são lágrimas, contrição de alma diante de Deus, fuga para o silêncio e recorrência paciente a Deus, uma diligente investigação nas Escrituras e um desejo, baseado na fé, de cumprir com os propósitos de Deus. Quando, por outro lado, falta a alguém paciência e humildade, os sinais disso são dúvida com relação à ajuda divina, envergonhar-se de perguntar humildemente, anulação do silêncio e rejeição das Escrituras, amor pela distração e pela companhia humana, com a ideia _inteiramente extraviada_ que se pode obter repouso deste modo. Pelo contrário, é assim que as paixões encontram uma oportunidade para criar raízes, e que as armadilhas e tentações crescem mais fortemente, enquanto que por sua própria pusilanimidade, ingratidão e desatenção cai numa ignorância abundante.

As armadilhas impostas pelos pais espirituais de modo a disciplinar e instruir suas crianças espirituais são uma coisa; mas as armadilhas trazidas por nossos inimigos para nossa destruição são outras. Isto é especialmente verdadeiro quando estamos iludidos pelo orgulho; pois 'Deus resiste ao soberbo mas dá graça ao humilde' (cf. Tiago 4:6; Provérbios 3:34). Toda tribulação que aceitamos pacientemente é boa e profícua; mas o que não aceitamos pacientemente, nos conduz para longe de Deus e não serve a qualquer propósito útil. Quando isso acontece só existe a cura pela humildade. O homem humilde se auto censura e se envergonha e não culpa a ninguém mais quando sofre alguma aflição. Consequentemente, ele pacientemente espera por Deus para libertá-lo, e quando isto ocorre ele se alegra e permanece agradecido por aquilo que vier; a através do conhecimento destas coisas ele ganha conhecimento espiritual. Reconhecendo sua própria ignorância e fraqueza, ele procura diligentemente pelo Médico e, solicitando-O, O encontra, como o próprio Cristo disse (cf. Mateus 7:8). tendo o encontrado, ele cai de amores por Ele. Então, purificando-se tanto quanto é possível, ele luta em fazer morada em si mesmo para o Amado que tanto ama. E o Amado por quem anseia, encontrando morada neste homem, ocupa esta morada, como diz o Gerontikon. Lá habitando, Ele protege Sua casa, e a enche de luz. E a pessoa assim repleta com luz sabe e conhecendo é conhecido, como diz São João de Damascos.

Em tudo isso e no que foi dito acima, deve-se manter uma ordem própria, e deve-se trabalhar naquilo que se compreende. Pois o que não se pode compreender, deve-se dar Graças Silenciosas, como diz Santo Isaac, e não assumir presunçosamente que o entendeu. E Santo Isaac, tomando de empréstimo estas palavras de Siraque, também diz: "Quando encontrardes mel, come moderadamente, para que por excesso de autoindulgência não venhas a vomitá-lo" (cf. Provérbios 25:16). Como São Gregório, o Teólogo diz, "Contemplação descontrolada pode muito bem nos empurrar ao longo da margem, quando procuramos o que está além de nossas forças e somos relutantes em afirmar, 'Deus sabe destas coisas; mas quem sou eu?'". E São Basílio observa que devemos acreditar que Ele que fez as montanhas e os grandes monstros do mar,  também é quem tira o ferrão da picada da abelha. (Os seis dias da Criação, IX).


Assim, aquele que é forte o suficiente para alcançar conhecimento, apreende o espiritual do sensível, e o invisível e eterno do que é visível e transitório. Tendo apreendido, através da Graça, um conhecimento de poderes elevados, ele observa que um simples homem justo é mais digno do que o mundo inteiro. 'Considere a quantas línguas e nações os homens justos se destacam', diz São João Crisóstomo. 'Ainda que um anjo seja maior do que um homem, e a visão de um simples anjo seja suficiente para surpreendê-lo, lembrai o que aconteceu a Daniel, igual aos anjos, quando viu o anjo'. (Cf. Daniel 10: 5-21). (Sobre a Incompreensibilidade de Deus III, 4).

segunda-feira, 1 de julho de 2013

O quinto estágio da contemplação

Continuação do post anterior



O quinto estágio da contemplação

Através do quinto estágio da contemplação, o assim chamado 'conselho' pelo profeta (cf. Isaías 11:2), chega-se a entender como a Beatitude implica a natureza cambiável das criaturas visíveis: como elas partem da terra e a ela retornam, confirmando assim as palavras do Eclesiastes: "Vaidade das vaidades; tudo é vaidade" (Eclesiastes 1:2). São João Damascos diz a mesma coisa: "Todos negócios humanos , tudo o que não existe após a morte, é vaidade. Vaidade das riquezas e da glória, que nos deixam. Quando a morte vem, todas estas coisas desaparecem". E novamente, "Verdadeiramente todas as coisas são vaidade; a vida é uma sombra e um sonho, todo homem nascido da terra desgasta-se em vão, como diz a Escritura" (cf. Salmos 39: 6). Mas o momento em que ganhamos o mundo inteiro é quando estamos na sepultura, onde rei e mendigo são iguais.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

O quarto estágio da Contemplação

Continuação do post anterior. Páginas 122 a 133

O quarto estágio da contemplação




O quarto estágio da contemplação consiste no entendimento da Encarnação do Senhor e de Seu modo de vida neste mundo, a ponto tal que nos esqueçamos mesmo de comer, como escreve São Basílio, o Grande! Isto, de acordo com São João Clímaco, foi o que aconteceu ao rei Davi (cf. Salmo 102:4), quando sua mente foi tomada de êxtase com as maravilhas de Deus (Escada, etapa 7). Como diz São Basílio, ele estava perdido sem saber o que fazer em troca: "O que poderei retribuir ao Senhor por tudo aquilo que Ele me fez?" (Salmo 116:12). Para nossa salvação, Deus viveu entre os homens, por causa de nossa natureza corrompida o Logos tornou-se carne e habitou entre nós. A fonte da Benção visitou os desgraçados, o Libertador esteve entre os cativos, o Sol da Justiça sentou-se com aqueles que jaziam nas trevas. O Homem do Desapego aceitou a Cruz, iluminou o Hades, deu vida aos mortos, ressurreição aos caídos. Diante dele choraremos: "Nosso Deus, glória a Vós!" (Paraklitiks, tono 7). São João de Damascos diz: "O céu estava surpreso, e os confins da terra estava atônito, que Deus aceitasse aparecer em forma corporal para os homens e que teu útero, Oh Mãe de Deus, fosse capaz de conter os céus; por conta disso as ordens angélicas e humanas te magnificam". (Paraklitiks, tono 8) E novamente: "Todos os que ouviram estremeceram diante da inefável condescendência de Deus: como o Supremo, de sua própria vontade, desceu ao corpo e fez-se homem nascido do útero de uma virgem. Por causa disso nós magnificamos a puríssima e fiel Mãe de Nosso Deus." (Paraklitiks, tono 8).

"Venham todos e creiam. Vamos subir a montanha sagrada e celestial; libertemo-nos da materialidade, vamos ficar na cidade do Deus vivo e ver com nosso intelecto imaterial o Pai e o Espírito em chamas diante do Filho Unigênito. Tu me arrebataste e deixaste a mim com saudades de Ti, Oh Cristo, e transformaste a mim com a intensidade do Teu divino amor; com fogo imaterial consumiste meus pecados e encheste a mim com Tuas delícias, de modo que em meu gozo, Oh Senhor, eu possa louvar  Tua primeira e segunda vinda". (Festa da transfiguração, Segundo Canon, Cântico 9, Tropário), Tu és toda a ternura, Oh Salvador, todo o meu desejo, verdadeiramente a meta de minha saudade insaciável; Tu és toda a beleza irresistível". (Tono 6, Canon, Cântico 8).

Se alguém pelas virtudes do corpo e da alma recebeu conhecimento destas coisas, e dos mistérios ocultos nos ditos dos santos padres, das divinas Escrituras e especialmente do Santo Evangelho, ele nunca perderá esta saudade ou cessará de derramar lágrimas vindas espontaneamente. Também nós que não fazemos mais do que ouvir as Escrituras, devemos devotarmo-nos a elas e meditar nelas tão constantemente que por nossa persistência um desejo de Deus será plantado em nossos corações, como diz São Máximo. Foi isso  que os santos padres fizeram antes de adquirirem o conhecimento espiritual direto. Toda a saudade dos mártires foi dirigida somente a Deus. Eles eram unidos a Ele através do amor e entoavam a Ele louvores, como diz São João de Damascos das três santas crianças: 'Estas abençoadas crianças, arriscando suas vidas na Babilônia em nome de suas leis ancestrais, desdenharam as tolas  ordens de seus reis; lançados nas chamas e ainda não consumidos, entoaram hinos dignos do UNO que as manteve salvas". (Tono 6, Canon, Cântico 8). Isto é muito natural; pois quando uma pessoa realmente percebe as maravilhas de Deus, ela fica totalmente além de si mesma e lhe parece óbvio a transitoriedade dessa vida, porque ele compreendeu as Escrituras, assim como foram postas por São Isaac.

Tal homem não é como nós: pois ainda que possamos ser influenciados por um curto tempo pelas Escrituras, nós mergulhamos novamente na escuridão por causa da preguiça, do esquecimento e da ignorância, e nos tornamos obstinados por causa de nossas paixões. Mas aquele que foi purificado por causa de suas paixões através de um dom interior percebe os mistérios ocultos em todas as Escrituras e é surpreendido por elas, especialmente pelas palavras e ações recordadas em todos os Santos Evangelhos. Ele é surpreendido em ver como a sabedoria de Deus torna o que é difícil fácil, de modo que gradualmente ela deifica o homem. Ele é preenchido com bondade, de modo que ele ama seus inimigos; ele é misericordioso como o Pai é misericordioso (cf. Lucas 6:36); ele é desapegado como Deus é desapegado; ele é dotado de todo tipo de virtude e é Perfeito como o Pai é perfeito (cf. Mateus 5:48). Em suma, a Bíblia Sagrada ensina-nos que o que convém a Deus convém também ao homem, de modo que ele se torna deus por divina adoção.

Quem não se maravilha com os ensinamentos do Divino Evangelho? Pois, simplesmente com a condição de que escolhamos corretamente, Deus nos dará repouso tanto neste mundo como no próximo, e nos concederá grande honra. É como disse o Senhor: "Aquele que se humilha será exaltado" (Lucas 18:14). São Pedro confirmou isso quando ele deixou as redes e recebeu as chaves dos céus (cf. Mateus 16:9); e cada um dos discípulos, deixando para trás o que eles tinham, recebeu aos seus cuidados o mundo inteiro nesta era e na era que vem. "O que os olhos não viram, o ouvido não ouviu, e o coração do homem não compreendeu, tais coisas Deus preparou para aqueles que O amam" (1 Cor. 2:9). Isto é verdadeiro não apenas aos apóstolos, mas também a todos aqueles que foram escolhidos no tempo presente para buscar conhecimento espiritual. Como disse um dos padres: "Mesmo que eles lutassem no deserto eles tinham repouso". Ele disse isso com referência à vida que é tranquila e livre de problema.

Quem tem grande repouso e honra, a pessoa que se devota  a Deus e age de acordo, ou a pessoa que é envolvida em movimentos contínuos, tribunais e cuidados mundanos? A pessoa que sempre conversa com Deus através da meditação nas Sagradas Escrituras e nas preces e lágrimas sem distração, ou a pessoa que está sempre em movimento, que se devota  à fraude e à ações sem lei que, quando vêm que elas não dão em nada, deixa-o apenas com exaustão e sentindo uma dupla morte? Considere como muitos de nós suportamos a morte dolorosa e desonrosa por nada. Inclusive, alguns por fins puramente destrutivos infligiram o maior prejuízo em suas próprias almas. Tenho em mente assaltantes, piratas, fornicadores, instigadores de brigas - todos eles pessoas que recusam a salvação e o repouso, honra e recompensa que lhes advém. Quão cegos são! Nós permanecemos mortos por causa da destruição, mas não ama a vida em prol da salvação. E se nós preferimos a morte ao Reino dos Céus, no que nós diferimos do ladrão que rouba a sepultura? Estes simplesmente por causa da comida, muitas vezes suportou a morte que está para vir, assim como a morte na vida presente.

Nós devemos fazer de Cristo nossa meta primária; pois àqueles que O escolheram, Ele confere o Reino dos Céus. Isso significa que nesta vida presente nós devemos crescer em espiritualidade acima de todas as coisas, sujeitando todas as coisas a Ele. Nós devemos governar não só as coisas externas mas também o corpo, através de nosso desapego a ele, e sobre a morte, através da coragem de nossa fé; então na vida que virá nós reinaremos em nossos corpos eternamente com Cristo através da Graça da ressurreição. A  morte vem tanto ao justo quanto ao pecador, mas há uma grande diferença. Como mortais ambos morrem, e não há nada de extraordinário nisso. Mas um morre sem recompensa e possivelmente condenado; o outro é abençoado neste mundo e no próximo.

Qual é a finalidade de acumular riquezas? Mesmo a contragosto, aquele que tem muitas posses terá de entregá-las, não apenas no momento de sua morte, mas mesmo antes dela, com muita vergonha, tribulação e dor. A riqueza gera inúmeros contratempos - temor, angústia, preocupação constante e problemas buscados e não buscados - e muitos têm sofrido até mesmo morte por sua causa.  Mas o santo mandamento de Deus salva todo homem de tudo isto e concede-lhe plena liberdade da angústia e medo; frequentemente, de fato, ela possibilita delícias aqueles que deliberadamente escolheram se atar às posses. Mas o que traz mais delícia do que alcançar o desapego e não estar mais ao balanço do medo ou desejar coisas mundanas? Olhando como nada as coisas que a maioria das pessoas valorizam a colocando-se acima delas, nós estamos vivendo já no paraíso, ou melhor no Reino dos Céus, libertos de todos os constrangimentos e capazes de uma devoção sem obstáculos a Deus.

Porque uma pessoa em tal estado aceita jocosamente tudo o que lhe advém, todas as coisas lhe trazem repouso; porque ele ama a qualquer um, todos o amam; porque ele é desapegado de todas as coisas, ele paira acima de tudo. Ademais, ele não deseja as coisas que as outras pessoas lutam com afinco, e que lhes traz aflição quando não conquistadas, ainda que fossem condenados ao adquiri-las. Este desapego liberta a pessoa dos sofrimentos oriundos das aquisições já nesta vida presente e na vida futura. Porque ele não quer o que não possui ele está acima e além de todo conforto e riqueza; enquanto desejar o que lhe falta é o pior tormento que um homem pode sofrer antes do sofrimento eterno. Uma pessoa nessas condições é escrava, mesmo que aparentemente seja um homem rico ou até um rei. Os mandamentos do amor não são onerosos (cf. I João 5:3). Ainda, abjetos que somos, nós não os suportaríamos com tanta impaciência se não fôssemos recompensados por isso.

Aquele que pode parcialmente entender a graça do Santo Evangelho e as coisas que nele estão contidas - dito de outro modo, as ações e ensinamentos do Senhor, Seus mandamentos e Suas doutrinas, Suas exortações e Suas promessas -conhece o tesouro inexaurível que encontrou, ainda que não seja capaz de falar de tais coisas como deveria, já que o celestial é inexprimível. Pois Cristo está oculto no Evangelho, e aquele que deseja encontrá-Lo deve primeiro vender tudo o que tem e comprar o Evangelho (cf. Mateus 13:44). Não é meramente suficiente encontrar Cristo pela leitura, mas deve também recebê-Lo em si mesmo imitando Seu modo de vida no mundo. E se ele procura Cristo, diz São Máximo, ele deve procurar não fora de si mas dentro de si mesmo. Como Cristo, ele deve tornar-se sem pecado de corpo e alma, na medida que isso é possível a um ser humano; e deve guardar o testemunho de sua consciência como todas as suas forças. Neste sentido, embora ele seja pobre aos olhos do mundo, ele regerá como um Rei sobre a sua vontade e em todos os tempos,colocando-se acima dela e rejeitando-a. Pois de que vale parecer-se um Rei quando se é escravo do temor e desejo neste mundo, enquanto na próxima vida se receberá a punição por não se ter mantido os mandamentos?

Quão desmiolados nós somos quando, pelo amor às coisas insignificantes e transitórias, nós não aspiramos receber bençãos grandiosas e eternas. Nós rejeitamos o que é bom e perseguimos o oposto. O que pode ser mais simples do que receber um copo de água e um pedaço de pão, ou do que abster-se de seus próprios desejos e pensamentos pequenos? Ainda através de tais coisas o Reino de Deus é oferecido a nós, pela graça DEle que disse: "Observai, que o Reino de Deus está entre vós" (Lucas 17:21). Pois, como diz São João Damasco, o reino de Deus não está distante, não está fora, mas dentro de nós. Isso ocorre simplesmente quando escolhemos superar as paixões e viver de acordo com a vontade de Deus. Mas se não escolhemos fazer isso, acabamos com nada. Pois o Reino de Deus, diz os Pais, é viver em conformidade com Deus; e este é o sentido da primeira e segunda vindas de Cristo.

Nós falamos da segunda vinda quando lidamos com nossa tristeza interior. Assim como a primeira vinda, aquele que através da graça e com plena consciência de alma agarro o sentido da encarnação deve exclamar em sua surpresa: Grandes sois Vós, oh Senhor, e maravilhosas são Vossas Obras; e nenhuma palavra é suficiente para cantar Vossas Maravilhas! Vede, amado Senhor, eu, Vosso Servo, que está diante de Vós, sem fala, sem movimento, esperando a luz do conhecimento espiritual que vem de Vós. Pois Vós disseste, Senhor, "Sem Mim, nada podereis fazer" (João 15:5). Logo, ensinai-me sobre Vós. Por tal razão ousei, como a irmã de Vosso Servo Lázaro (Cf. Lucas 10:39), sentar-me aos mais puros pés, assim que também possa ouvir através de meu intelecto, se não sobre Vossa incompreensível divindade, então ao menos pelo modo como Encarnaste no mundo. Deste modo, ganharei ligeira consciência do sentido em que em Vossa Graça disseste no Santo Evangelho; e como habitaste entre Nós "manso e humilde de coração" (Mateus 11:29), e como Vós mesmos disseste que podemos aprender o mesmo de Vós. Vós viveste na pobreza, ainda que de vossa arte foste rico em misericórdia; por Vossa própria escolha passaste fome e privações, ainda que oferecesses à Samaritana a água viva (cf. João 4:10), e tenhas dito: "Se alguém tiver sede, venha a Mim que lhe darei de beber" (João 7:37). Pois Vossa arte é fonte de cura e quem pode cantar Vosso Modo de vida neste mundo?

Eu sou terra, pó, cinza, um transgressor, um suicida, que pecou muitas vezes contra Vós e continua a fazê-lo; ainda assim apressastes em me conceder algo de Vossas ações e palavras; e ouso perguntar-Vos sobre elas, esperando ver-Vos pela fé, ainda que Vossa arte não seja toda visível no todo da criação. Perdoai-me minha ousadia. Pois Vós sabeis, oh Senhor, prescrutador dos corações, que eu não pergunto por curiosidade, mas procuro aprender. Eu creio que se eu me encontro digno de Vosso conhecimento espiritual, então em Vossa Compaixão Vós me concederás, como Vós fazeis a todos os que anseiam por Vós, a força para imitar a Vossa Vida na carne; pois é em virtude de Vossa encarnação que eu pela graça sou dito cristão. Embora não sejamos como Vossos discípulos, sendo capaz de suportar a morte por amor aos seus inimigos, ou de adquirir a Virtude que Vós e eles tomaram, mas cada um de nós faz o que pode de acordo com a força de sua determinação. Pois ainda que morrêssemos por amor a Vós, ainda assim nós não poderíamos Vos reparar o que Vos devemos. Pois Vós, Oh Senhor, sendo perfeito Deus e perfeito homem, viveste neste mundo sem pecado e suportaste todas as coisas em nosso nome, enquanto nós, ainda que soframos alguma coisa, as sofremos por nossa própria culpa e por nossos próprios pecados. Quem não fica maravilhado quando pensa em Vossa inexprimível auto humilhação? Pois sendo Deus, inexcrutável, todo poderoso e regente de todas as coisas, entronado acima dos querubins - que são figuras de sabedoria em sua multiplicidade - enquanto nós homens temos provocado desde o começo Vossa Ira, Vós vos humilhastes, aceitando nascer e vir até nós. Vós suportastes perseguição, apedrejamento, zombaria, insultos, golpes, ridicularização e cusparadas, em seguida a cruz e os pregos, a esponja e a cana, vinagre e fel, e todo o resto que sou tão indigno de ouvir. Então uma lança perfurou Vosso lado mais puro, e desta ferida Vós derramaste por nós Vida Eterna. Vosso precioso sangue e água.

Eu louvo Vosso nascimento e aquela que deu vosso nascimento: ela que permaneceu virgem após Vosso nascimento. Eu vos louvo na gruta, enfaixado na manjedoura. Eu Vos glorifico, que fugistes para o Egito com Vossa virginal e mais pura Mãe, que viveste em Nazaré em obediência aos Vossos pais mortais, Vosso pai adotivo e Vossa mãe verdadeira. Eu Vos louvo, batizado no Jordão por João, o Precursor - Vós, Senhor, e Vosso Pai que deste testemunho de Vós, e Vosso Espírito Santo que Vos manifestaste. Eu louvo Vosso Batismo e Vosso João Batista, Vosso profeta e Vosso servo. Eu vos glorifico pois jejuaste por nós, que voluntariamente aceitaste a tentação e triunfaste sobre o inimigo no corpo o qual expulsaste de nós, dando-nos vitória sobre ele em Vossa inexprimível sabedoria. Eu Vos glorifico pois viveste entre Vossos Discípulos, limpastes lepras, fizestes aleijados se porem de pé eretos, destes luz aos cegos, discurso e escuta aos mudos e surdos; como Vós abençoastes os pães e caminhastes sobre as águas como se fosse terra seca, conversastes com as multidões acerca das práticas das virtudes e sobre a contemplação, proclamastes o Pai e o Espírito Santo, pressagiastes as ameaças e promessas que viriam, e falastes de tudo o nos que traz salvação. Eu Vos rogo, a Vós que vencestes os inimigos; que expulsas as paixões pela raiz com Vossos sábios ensinamentos; que torna tolos os sábios e que derrubas idiotas astutos com vossa sabedoria sem limites; que ressuscitastes os mortos com Vosso poder inexprimível e derrubastes demônios com Vossa autoridade de Deus. E não apenas fizestes tais coisas por tua própria pessoa, mas destes aos Vossos servos o poder de fazer coisas ainda maiores (cf. João 14:12), de modo que pudéssemos ficar ainda mais surpresos, como Vós mesmo dissestes. Grande é o Vosso Nome, pois por Ele, Vossos santos realizaram todos os seus milagres.

Senhor Jesus Cristo, Filho e Logos de Deus, o mais terno nome de nossa salvação, grande é Vossa Glória, grandes são Vossas Obras, maravilhosas são Vossas Palavras são "mais doces do que o mel, o mel que sai dos favos" (Salmo 19:10). Glória a Vós, Oh Senhor, Glória a Vós. Quem pode glorificar e louvar Vossa Vinda na Carne, Vossa bondade, poder e sabedoria, Vossa vida neste mundo e Vossos ensinamentos? E como é que Vossos santos mandamentos nos ensinam a  vida de virtude tão naturalmente e tão facilmente? Como Vós disseste, "Perdoai, e sereis perdoados" (cff. Mateus 6:14), e novamente: "Procurai e acharei, batei à porta e ela vos será aberta" (Matt. 7:7), e ainda, "O que quer que queiras que vos façam, fazei aos demais" (Matt 7:12). Quem, tendo entendido Vossos mandamentos e outros ensinamentos, não ficará atônito quando perceber Vossa sabedoria sem limites? Pois Vós sois a sabedoria de Deus, a vida de todos, o gozo dos , a luz inefável, a ressurreição dos mortos, o bom pastor que "dá a vida por suas ovelhas" (João 10:11). Eu louvo Vossa Transfiguração, Crucifixão, Sepultamento, Ressurreição, Ascensão, Vosso trono ao lado direito de Deus Pai, a descida do Espírito Santo e Vosso futuro advento, quando virá com Vosso poder e grandeza e incompreensível glória.

Eu fraquejo, meu Senhor, diante de Vossas maravilhas e tenho de refugiar-me no silêncio para não perdê-las. Comumente não sei o que fazer. Pois quando mantenho silêncio, o espanto me domina; mas se ouso dizer algo, eu pairo mudo e sou arrebatado. Eu me vejo tão indigno do céu e da terra, merecendo punição, não simplesmente por conta de meus pecados cometidos, mas muito mais por causa das bençãos recebidas sem demonstrar qualquer gratidão, desprezível como sou! Pois Vós, Senhor, que transcendes toda a bondade, preencheste minha alma com toda sorte de benção. Eu percebo apenas vagamente Vossas Obras e minha mente fica maravilhada. Meramente a olhar para Vós, reduzo-me a nada. E nem mesmo este conhecimento ou esforço é meu, pois é por Vossa Graça que conheço ou me esforço. Logo, vou colocar minha mão na boca, como fez Jó certa vez (cf. Jó 40:4), e tomarei refúgio com os santos, pois sou aturdido.


Bem aventurada Rainha do universo, sabes que não temos nenhuma intimidade com o Deus que de ti nasceste. Mas, pondo nossa confiança em ti, através de tua mediação, nós, teus servos nos prostramos diante do Senhor: pois tu podes livremente aproximar-se DEle já que Ele é teu filho e nosso Deus. Assim também eu, crente indigno que sou, suplico a ti, Mãe Santa, para que me possa ser permitido perceber os dons da graça concedidos a ti e aos outros santos, e entender por fim como  podes exibir tantas virtudes. Simplesmente ao dar nascimento ao filho de Deus, tu te sobressais diante de todas as outras Criaturas. Pois Aquele que, como criador de tudo, conhece todas as coisas antes que venham à existência, achou teu ventre digno de ser Sua morada. Ninguém pode te questionar sobre seu mistério, pois elas transcendem a natureza, o pensamento e o intelecto. Justamente nós, que fomos salvos por ti, Virgem pura, te confessamos como Mãe de Deus, exaltando-lhe os coros angélicos. Pois Deus, a quem os homens não podem ver, a quem a fileira dos anjos não ousam olhar, foi por ti tornado Visível aos homens como o Logos feito carne. Glorificando O com as hostes celestes nós proclamamos a ti como bem aventurada! E como devemos chamar-te, tu que és cheia de Graça? Oh Céus, por ti o Sol da Justiça brilhou adiante? Oh Paraíso, estendeste a flor da imortalidade? Virgem, como permaneceste inviolada? Mãe pura, pois tu realizaste em teu abraço sagrado o Deus de tudo? Mãe de Deus, tu és o verdadeiro vinho, pois tiveste o fruto da vida. Nós te rogamos, intercede com tua glória com os apóstolos e todos os santos, para que Deus tenha misericórdia de nossas almas. Pois com verdadeira fé nós confessamos que tu és a Mãe de Deus e nós te bendizemos, sempre bendita. Todas as gerações te proclamam bendita como a única Mãe de Deus, mais honrada do que os querubins e incomparavelmente mais gloriosa que os serafins.

Incapaz de compreender os mistérios da mãe de Deus, eu me maravilho com a vida dos outros santos, e pergunto: Como é que se mora, Oh Batista e Mensageiro do Senhor, no deserto? Do que deveríamos chamar-lhe, oh profeta: anjo, apóstolo, mártir? Anjo, já que viveu como se não tivesse corpo; apóstolo, porque lançou as nações em suas redes; mártir, porque perdeu a cabeça por amor a Cristo. Rogue a Ele pela salvação de nossas almas. (festa da decapitação de São João Batista, Véspera). "A memória do justo é abençoada", como diz Salomão (cf. Provérbios 10:7); mas o testemunho do Senhor vos satisfaz, oh Precursor: verdadeiramente eras proclamado maior em honra do que os profetas, pois foi encontrado digno de batizar Aquele de quem profetizou.

Santos Apóstolos e discípulos do Salvador, testemunhas oculares do Seu mistério, vocês proclamaram Aquele de quem ninguém pode contemplar e que não tem origem dizendo "No princípio era o Logos" (João 1, 1). Vocês não foram criados antes dos anjos, nem aprenderam isso dos homens, mas da sabedoria que está acima de tudo. Nós lhes rogamos, então, já que têm comunhão com Deus, intercedam por nossas almas. Eu me maravilho do Amor que tiveram por Deus. E o antigo Tropário diz: "Senhor, os apóstolos verdadeiramente ansiaram por Vós na terra, eles consideraram que todas as coisas eram esterco, a fim de que pudessem ganhar apenas a Vós" (Cf. Filipenses 3:8). Por Vós eles deram seus corpos para a tortura e foram glorificados e por conta disso eles intercedem por nossas almas". Como é que sendo homens, como nós somos, e vestindo essa carne de barro, vocês mereceram tais virtudes, de modo que suportaram a morte para a felicidade e bem daqueles que lhes mataram? Como, sendo tão poucos, conquistaram o mundo inteiro? Como, sendo simples e iletrados, superaram reis e legisladores? Como, sendo nus, desarmados e pobres, encarcerados numa carne fraca, derrotaram demônios invisíveis?  E que força era maior do que a fé, ela que os capacitou a receber o Espírito Santo - vocês e os santos mártires que lutaram o bom combate e receberam suas coroas? Apóstolos, mártires, profetas, hierarcas, santos homens, nós vos rogamos que intercedam com Cristo de modo que pela Sua bondade Ele nos salve as almas.

Quem não se admira quando vê, Oh santos mártires, o bom combate que lutaram? Sendo corpóreos venceram o inimigo incorpóreo, bastando-lhes confessar Cristo e se armarem com a Cruz. Apenas com isso revelaram ser capazes de expelir demônios e inimigos de bárbaros poderes. Intercedam sem cessar pela salvação de nossas almas. Como as três crianças na fornalha ardente, vocês suportaram suas provações na esperança de uma recompensa, mas por amor a Deus, como elas declararam: "Mesmo que Deus não nos livrasse, ainda assim não haveria nenhuma razão para nós O negarmos como alguém que não salva" (cf. Daniel 3: 17-18). Eu me maravilho desta extrema humildade, santas crianças, pois mesmo envolvidas em chamas, vocês declararam não saber como não dar graças a Deus. "Não há neste momento nenhum príncipe, profeta, líder ou holocausto", diziam, "... mas porque nós viemos com um coração contrito e espírito humilhado, aceita-nos" (Canção das 3 crianças, versos 15 e 16). Eu me maravilho do poder de Deus que preencheu estas crianças, assim como Elias o profeta; como disse São João Damascos: "Oh chama, tens feito cair o orvalho sobre teus santos" (Canção das 3 crianças, verso 27), "e queimaste com água o sacrifício do Justo" (cf. I Reis 18:38). "Pois fazeis todas as coisas, Oh Cristo, simplesmente apenas por Vossa vontade". Aliás, o que contemplarei em primeiro lugar? O testemunho encontrado nos Evangelhos, ou os Atos dos Apóstolos? As lutas dos mártires, ou a batalha dos santos padres, ou dos santos antigos e recentes, tanto homens quanto mulheres? Suas vidas e ditos, ou seus poderes de interpretação e discernimento? Estou perdido e maravilhado.

Mas eu Vos rogo, senhor Compassivo, não me permita ser condenado por causa da maneira indigna e estéril em que eu contemplo os grandes mistérios que Vós revelastes aos Vossos santos, e através deles a mim, um pecador e Vosso indigno servo. Pois veja, Senhor, Vosso servo coloca-se perante Vós, ocioso em todas as coisas, sem fala, como alguém que jaz morto; e eu não ouso dizer qualquer coisa a mais presunçosamente para vir a contemplar mais tarde. Mas como sempre me caio diante de Vós, chorando das profundezas da minha alma e dizendo, "Mestre e Senhor rio em misericórdia, Senhor Jesus Cristo..." e o resto da oração. (Aqui deve-se meditar na segunda oração e nos salmos, observando a conduta de nossa alma e corpo, para que se desenvolva uma disposição receptiva aos divinos pensamentos. Então você será capaz de com plena consciência entender todos os mistérios e milagres ocultos nas Sagradas Escrituras. Surpreendido neste sentido com os dons de Deus, você virá a ama-Lo e a sofrer por seu amor com alegria, como fizeram todos os santos. Pois as sagradas Escrituras são plenas de coisas maravilhosas, como diz Salomão).

Juntamente a outras maravilhas, eu me admiro do poder de Deus como se manifestou no maná. Pois o maná não preservou a mesma forma até o dia seguinte, mas dissolveu e foi encontrado cheio de vermes (cf. Êxodo 16:20). Isso foi para prevenir aqueles que faltaram com a fé preocupando-se eles mesmos com o dia seguinte. Mas no jarro estava no tabernáculo permaneceu imutável (cf. Êxodo 16: 32-34). Novamente quando cozido com fogo o maná não era queimado; ainda que dissolvido no menor raio de luz do sol, para que o ganancioso não exigisse mais do que o necessário para mantê-lo vivo. Quão maravilhosamente Deus trabalha em todo lugar para a salvação dos homens, como diz o Senhor em relação à divina providência: "Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também" (João 5:17). Aquele que medita nisso é exteriormente educado pelas Sagradas Escrituras, e interiormente pela divina providência. Ele começa a ver as coisas em sua verdadeira natureza, como dizem São Gregório de Nissa e São João de Damascos. Ele não é mais enganado pelo aspecto atrativo das coisas deste mundo, tais como beleza física, riqueza, glória transitória e etc; nem é seduzido pelas sombras que eles deixam, como são ainda aqueles sujeitos às paixões.